|
|
| {{subiu_orn | }} |
{{subiu_num | }} |
{{subiu_orn | }} |
{{subiu_caps | }}
{{subiu_linha | }}
|
|
A agenda que o Duplex não sabia filtrar
Em 2018, o Google mostrou uma voz sintética marcando horário por telefone, e a secretária ficou com a escolha de quem entra.
|
A ligação saiu da mão, a agenda ficou
|
| ▼ |
| |
|
Aos 41 anos, a secretária executiva Cláudia Menezes assistiu, numa terça-feira de maio de 2018, ao vídeo em que um assistente do Google ligava para um salão de beleza e marcava um corte de cabelo sem que a recepcionista percebesse que falava com uma máquina.
O vídeo circulava no grupo de mensagens das secretárias da construtora de Campinas onde ela trabalhava havia 14 anos. Alguém tinha escrito embaixo, com três pontos de exclamação, que a profissão acabava ali.
Na tela, Sundar Pichai, presidente-executivo do Google, apresentava o Duplex no palco do Google I/O, a conferência anual da empresa para desenvolvedores, em Mountain View, na Califórnia. A voz sintética soltava "hum" e "aham" nas pausas certas, respirava como gente e contornava a dúvida da atendente sobre o horário livre.
Cláudia fez a conta pelo próprio expediente. Uma parte grande do dia dela era telefone: confirmar almoço, remarcar reunião, reservar mesa para cliente de fora, avisar o motorista sobre o voo do diretor, lembrar o aniversário do sócio. Se a máquina fazia a ligação, que trabalho sobrava para ela?
Sobrava a pergunta que vinha antes de cada ligação. Quem teria meia hora com o diretor naquela semana, quem ficava para o mês seguinte, qual fornecedor merecia retorno no mesmo dia e qual podia esperar sem prejuízo para a obra.
Nenhuma voz sintética recebia essa instrução pronta. Ela morava no caderno de Cláudia, nos recados anotados à margem da agenda de papel e na memória de quais clientes pagavam em dia e quais ameaçavam trocar de construtora.
A travessia de hoje é de uma secretária que viu o telefone sair da mão e descobriu que o trabalho de valor estava na agenda, na escolha de quem entra e de quem espera, e numa planilha que ela mesma inventou para defender essa escolha diante do chefe.
Continue lendo ↓
|
|
|
|
I A história de quem atravessou
Quatorze anos de telefone e uma agenda disputada
|
|
Da mesa de ligações ao filtro da agenda do diretor, com uma planilha que virou critério.
Cláudia Menezes tem 41 anos, mora em Campinas, no interior paulista, e é secretária executiva de uma construtora de médio porte desde 2004. O nome aqui vai trocado; a empresa, o cargo e as mudanças de rotina são os dela.
Ela atende um diretor de operações que passa metade da semana em canteiro de obra. A agenda dele cabe em quatro manhãs e três tardes de escritório, e todo mundo quer um pedaço: engenheiros, clientes, gerentes de banco, fornecedores de aço e concreto.
Antes do Duplex: telefone na orelha a manhã inteira, a agenda montada pela ordem de chegada dos pedidos
Depois da demonstração: a ligação virou tarefa que se terceiriza, e o valor passou para a triagem de quem pede tempo
A ferramenta do Google nunca chegou ao escritório dela. O Duplex funcionava em inglês, em cidades americanas, e servia para reservar restaurante e salão. O efeito veio por outra porta: o diretor passou a marcar reuniões sozinho num aplicativo de agenda compartilhada, e em seis meses a semana dele estava lotada de compromissos que Cláudia não tinha filtrado.
A agenda cheia mostrou um padrão. Fornecedor insistente conseguia horário; cliente que pedia pouco e pagava em dia ficava sem retorno. O aplicativo marcava por disponibilidade, e disponibilidade não diz quem importa para a empresa.
Cláudia montou uma planilha com três colunas para cada pedido de reunião: quem pede, o que a construtora ganha ou perde se a conversa esperar duas semanas, e quem mais poderia resolver sem o diretor. Levou a planilha ao chefe numa sexta à tarde.
|
A ligação qualquer um faz, gente ou máquina. Decidir quem merece a ligação exige saber o que a empresa precisa naquele mês.
|
O diretor devolveu a ela o controle da agenda, com uma condição: toda recusa precisava de motivo escrito e de um caminho alternativo para quem ficava de fora, fosse um engenheiro da equipe, fosse uma data no mês seguinte.
A função mudou de peso. Cláudia ainda telefona, mas passa mais tempo lendo proposta de fornecedor antes de marcar reunião e perguntando aos gerentes qual obra está atrasada, porque obra atrasada ganha prioridade na semana.
Ela não sabe quanto tempo o arranjo dura. A construtora testa desde 2024 um assistente de agenda com inteligência artificial, e a diretoria ainda não decidiu se ele vai apenas sugerir horários ou aceitar convites por conta própria.
|
|
|
|
|
II Radar de Automação
A voz que dizia aham no palco de Mountain View
|
|
O Duplex provou que a máquina consegue fazer a ligação. Decidir para quem ligar, e para quem não ligar, continuou sendo trabalho de gente.
|
O radar de hoje está na agenda executiva. Telefonar para marcar horário segue roteiro previsível: data, hora, número de pessoas, nome para a reserva. Roteiro previsível costuma abrir a fila da automação em qualquer ofício.
O Duplex foi apresentado em 8 de maio de 2018. A demonstração tocou duas gravações: uma ligação para um salão de beleza e outra para um restaurante, onde a atendente, com inglês truncado, explicava que a casa não aceitava reserva para grupos pequenos. A máquina entendeu e perguntou quanto tempo seria a espera.
A reação veio rápida. Críticos na imprensa americana acusaram o Google de enganar quem atendia, porque a voz não se identificava como máquina. Dias depois, a empresa prometeu que o Duplex anunciaria a própria natureza logo no começo de cada chamada.
O serviço chegou aos celulares Pixel no fim de 2018, em algumas cidades dos Estados Unidos. Em maio de 2019, os repórteres Brian X. Chen e Cade Metz, do jornal The New York Times, apuraram que cerca de 25% das ligações eram feitas por operadores humanos em centrais de atendimento, e que 15% das chamadas automáticas precisavam de uma pessoa para terminar a reserva.
|
"Executivos eficazes não começam pelas tarefas. Começam pelo tempo."
Peter Drucker, The Effective Executive, 1967
|
O consultor austríaco Peter Drucker escreveu esse livro para gerentes de grandes empresas americanas. A tese central é que o tempo do executivo é o recurso mais escasso da organização, e que quem controla a agenda controla o que a empresa faz na prática.
A leitura muda o lugar da secretária no mapa da automação. O Duplex atacou a parte operacional da função, discar e confirmar. Deixou intacta a parte que Drucker chamava de gestão do tempo, a decisão sobre o que entra na semana do executivo.
O próprio Google estreitou o alcance da ferramenta. Em 2022 a empresa encerrou o Duplex on the web (versão que preenchia formulários de compra em sites), e as ligações automáticas seguiram restritas a reservas e horários simples.
Para quem trabalha no secretariado, o efeito aparece na descrição do cargo. Telefonar, confirmar e lembrar passam para aplicativos. Filtrar pedidos, negociar prioridade e recusar em nome do chefe ficam com quem conhece a empresa por dentro.
|
| |
|