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A câmera mede o pé e o assistente julga o lance

Desde a Copa do Catar, 12 câmeras marcam a posição do atacante, e o assistente passou a ser cobrado pela leitura da interferência.

Bandeira de assistente de arbitragem encostada na grade da linha lateral, com o gramado iluminado por refletores e câmeras presas sob a cobertura do estádio ao fundo.

A linha sai pronta, a leitura do lance não

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Aos 38 anos, o assistente de arbitragem Juliano Ribeiro Farias assistiu, num sofá em Goiânia, ao terceiro minuto da abertura da Copa do Catar, em 20 de novembro de 2022, e viu um gol do Equador ser anulado sem que nenhum bandeirinha levantasse o braço.

Enner Valencia tinha empurrado a bola para a rede contra o Catar. A comemoração durou pouco. No telão do estádio, uma animação em três dimensões mostrou um companheiro dele à frente do último defensor catariano no instante do passe, e o árbitro italiano Daniele Orsato marcou tiro livre para os donos da casa.

Juliano bandeirava jogos profissionais em Goiás havia oito anos. Sabia que, no campo dele, aquele lance dependeria de alguém correndo de lado na linha lateral, com o olhar dividido entre o pé de quem passa e o ombro do atacante, dois pontos às vezes separados por 30 metros de gramado.

No Catar, a FIFA tinha trocado esse olhar por 12 câmeras presas sob a cobertura de cada estádio. Segundo a própria FIFA, no anúncio do sistema em julho de 2022, elas rastreavam 29 pontos do corpo de cada jogador, 50 vezes por segundo, e a bola levava um sensor que registrava o toque 500 vezes por segundo.

A dúvida que ficou no sofá foi prática: se a máquina mede a posição, que trabalho resta para quem segura a bandeira? A resposta estava numa parte da regra que nenhuma das 12 câmeras resolve sozinha, a interferência no lance (quando o jogador em posição irregular atrapalha o adversário ou participa da jogada).

A travessia de hoje é de um assistente que deixou de ser avaliado pelo centímetro, passou a ser avaliado pela leitura do lance e reorganizou, em três temporadas, o próprio treino para caber na parte do ofício que sobrou com ele.

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I  A história de quem atravessou

Da linha lateral ao caderno de 300 lances

Três temporadas trocando o treino de linha pelo estudo de interferência, com a bandeira subindo mais tarde e errando menos.

Juliano Ribeiro Farias tem 38 anos, é professor de educação física em Goiânia e trabalha como assistente em jogos do Campeonato Goiano e das séries C e D desde 2014. O nome aqui vai trocado; os jogos, as escalas e os relatórios de avaliação são os dele.

O treino dele, até 2022, era de linha. Corrida lateral em arrancadas curtas, exercício de olhar dividido entre o passador e o penúltimo defensor, vídeo de lances apertados congelados no quadro do passe. O corpo inteiro do ofício estava montado para acertar a posição.

O VAR (árbitro de vídeo, a equipe que revê lances numa sala com as imagens da transmissão) já tinha mexido nessa rotina nos jogos maiores que ele passou a fazer. A orientação virou segurar a bandeira em lance duvidoso e deixar a jogada correr, porque um gol validado pode ser anulado pelo vídeo, e um ataque interrompido por engano não volta.

Antes, até 2018: bandeira no instante do passe, posição julgada a olho e jogada parada na hora

Depois do vídeo e das câmeras, desde 2022: bandeira atrasada, posição medida por máquina onde ela existe e jogada seguindo até o desfecho

A virada dele veio num relatório de avaliação de 2023. De 11 lances de impedimento marcados por ele e revistos pelo avaliador, 10 estavam certos na posição. O único erro registrado foi de interpretação: um atacante impedido, parado na frente do goleiro, que Juliano considerou fora da jogada e o avaliador considerou interferindo na visão.

A posição, ele percebeu, ia ficando com as máquinas nas competições que podiam pagar por elas. A interpretação continuava inteira com gente, em qualquer divisão.

Juliano montou um caderno. Em três temporadas, catalogou 300 lances de interferência, tirados de jogos que trabalhou e de transmissões internacionais, separados em quatro gavetas da regra: bloquear a visão do goleiro, disputar a bola com o adversário, fazer um movimento que engana o defensor e jogar a bola vindo de posição irregular.

A câmera responde onde estava o pé. Ela não responde se o corpo daquele atacante mudou a decisão do goleiro, e essa segunda pergunta continua sem máquina que a responda.

O treino mudou de proporção. Das quatro sessões semanais, uma segue de corrida lateral. As outras três viraram estudo de vídeo com o caderno aberto, sempre com a mesma pergunta: se aquele atacante não estivesse ali, o defensor teria feito o mesmo movimento?

Na temporada seguinte, o avaliador anotou 14 lances de impedimento com interpretação envolvida nos jogos de Juliano, e ele acertou 13. A ficha de avaliação passou a trazer elogio à leitura de jogo, item que antes nem aparecia nos relatórios dele.

Ele ainda não trabalhou em jogo com impedimento semiautomático. O caderno foi pensado para quando o sistema chegar às divisões em que ele atua e a bandeira passar a valer só pela leitura.

 
 

II  Radar de Automação

Doha, 2022: as 12 câmeras e a parte que ficou com gente

O impedimento semiautomático tirou do assistente a medição da posição e deixou com as pessoas a parte mais difícil da regra: decidir se o jogador em posição irregular participou do lance.

O radar de hoje está na linha de impedimento. Medir onde estava o ombro, o joelho ou a ponta da chuteira no instante do passe é tarefa de geometria, e geometria é o terreno natural de uma câmera calibrada.

A FIFA apresentou o sistema em 1º de julho de 2022, depois de testes na Copa Árabe de 2021 e no Mundial de Clubes. Pelo desenho descrito pela entidade, as câmeras montam um esqueleto digital de cada jogador, a bola Al Rihla, da Adidas, marca o instante exato do toque, e o software cruza os dois dados e dispara um alerta para a sala de vídeo.

Na sala, o árbitro de vídeo confere o quadro do toque e a linha gerada pelo sistema, valida o alerta e avisa o árbitro de campo. Depois da decisão, a mesma animação em três dimensões vai ao telão e à transmissão, para o torcedor ver o que a sala viu.

O sistema tem um limite escrito no próprio desenho. O alerta avisa apenas que houve jogador em posição irregular no toque. Se ele participou da jogada, quem decide são o árbitro e seus assistentes.

"Um jogador em posição de impedimento no momento em que a bola é jogada ou tocada por um companheiro só é punido se se envolver no jogo ativo."

IFAB, Regras do Jogo 2022/23, Lei 11

A IFAB (International Football Association Board, o órgão que escreve as regras do futebol) separa posição de infração há décadas. Estar à frente do penúltimo defensor, sozinho, não gera punição. A punição exige envolvimento, e as câmeras resolvem só a primeira metade da frase.

Na apresentação de julho de 2022, o italiano Pierluigi Collina, presidente da Comissão de Arbitragem da FIFA, rebateu o apelido de impedimento robótico e disse que árbitros e assistentes seguiam responsáveis pela decisão em campo.

Para o assistente, o efeito aparece na orientação. Com a posição garantida pela máquina, o pedido é segurar a bandeira até a jogada terminar e concentrar a atenção no que o atacante faz com o corpo: se tapa a visão do goleiro, se disputa a bola, se atrai o marcador para longe do lance.

A tarefa encolheu em quantidade e cresceu em peso. O assistente decide menos lances, porque vários deixaram de passar por ele, e cada lance que sobra é justamente o que pede interpretação. Nas competições sem câmeras, a velha exigência de centímetro continua valendo, somada à nova.

 

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III  O movimento de hoje

Quatro perguntas de interferência e uma planilha de rodada

O movimento de hoje é um treino de leitura que cabe numa semana, para quem apita, bandeira ou discute lance no sofá, e que separa o que a câmera mede do que alguém precisa interpretar.

1. Escolha dez gols anulados ou validados por impedimento numa rodada qualquer e anote, para cada um, só a pergunta de posição: o atacante estava à frente do penúltimo defensor no toque? Essa coluna é a parte que a máquina já faz.

2. Nos mesmos dez lances, responda as quatro perguntas da Lei 11: tapou a visão do goleiro, disputou a bola, fez movimento que enganou o defensor, jogou a bola? Um sim em qualquer uma vira interferência; quatro nãos deixam o jogador fora do lance.

3. Compare sua leitura com a decisão do árbitro e anote os lances em que discordou. Em quatro semanas, a lista de discordâncias mostra qual das quatro perguntas o seu olhar resolve pior.

A objeção aparece rápido: com tanta tecnologia, a interferência também não vai virar cálculo? Por enquanto, nenhum sistema oficial faz essa leitura. A IFAB não aprovou ferramenta para ela, e a regra continua descrevendo interferência por ações que dependem de interpretação.

Falta uma data na história de Juliano. A CBF não anunciou calendário do impedimento semiautomático para os estaduais e para as séries C e D, e a FIFA não divulga o custo da instalação por estádio. Sem esses dois dados, ninguém sabe quando as câmeras chegam aos jogos em que ele trabalha.

Juliano segue assistente, com a corrida lateral uma vez por semana. O que ele mudou foi a pergunta que leva para o campo: onde estava o pé passou a pesar menos que o efeito do corpo daquele atacante sobre o lance.

Recalcular a rota, aqui, começa pela semana de treino. Gastar as horas afiando o olhar na linha, a tarefa que as câmeras já assumiram nos torneios grandes, ou gastá-las no caderno de interferência, a parte da regra que continua sem máquina. As duas contas estão acima.

"Treinar para a posição que a câmera mede, ou para a interferência que ela ainda não sabe ler?"

 
 
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