|
Dois anos de arquivo, 61 campanhas que passaram pela mesa dele em quatro agências, e 47 delas chegaram com trilha pronta de gerador e nenhum titular declarado no material entregue ao cliente.
Rogério tem 47 anos e mora em Londrina. Vinte e dois anos compondo jingle para varejo regional, os últimos nove como autônomo contratado por quatro agências de médio porte. O nome vai trocado aqui, e duas das agências que cortaram o contrato hoje pagam por ficha emitida.
O corte chegou junto com o primeiro gerador de áudio que a diretoria de criação liberou, sem conversa prévia. Com a trilha saindo por descrição de texto e aprovada no mesmo dia da reunião, a produção musical deixou de ser encomenda e virou item de checklist. Em dezoito meses, a média dele caiu de doze jingles por ano para três, e a descrição do serviço passou de composição para gravação de voz.
Com o pagamento preso à composição, a matemática ficou direta:
Antes, composição, produção e entrega de jingle fechado nas quatro agências, com músico, estúdio e mixagem inclusos: R$ 11.400 por mês
Depois do gerador de áudio, gravação de voz sobre trilha pronta e ajuste de mixagem por chamado: R$ 4.100 por mês
A virada aconteceu por teimosia. Rogério continuou arquivando numa planilha cada campanha que passou por ele, com cinco campos: quem criou a melodia, quem escreveu a letra, quem executou a gravação, qual contrato de cessão existia assinado e se a peça tinha registro possível junto ao ECAD.
O retrato apareceu no fim do segundo ano. Das 61 campanhas, 47 tinham trilha de gerador sem autor identificado, 33 dessas foram ao ar em veículo com aferição de execução pública, e 19 usavam o mesmo trecho melódico que outras marcas do mesmo varejo já tinham veiculado, porque o gerador entrega saída parecida para descrição parecida.
Rogério começou a montar um dossiê de titularidade por campanha, com o que precisa estar documentado antes da peça ir ao ar: autoria da melodia com nome e CPF, autoria da letra, contrato de cessão de direitos patrimoniais com prazo e território, contrato de intérprete e de músico executante, e a declaração de originalidade que o anunciante junta ao processo.
|
Ali o trabalho passou a ser duas entregas separadas que a agência sempre pagou embrulhadas. Uma era o tempo de produzir trinta segundos de áudio agradável. A outra era garantir que aqueles trinta segundos tinham autor pessoa física, cadeia de cessão sem buraco, cadastro aceito e alguém que respondesse por eles se outra marca aparecesse reclamando a mesma melodia.
|
Com o dossiê em uso, a agência levou a duas campanhas retidas pelo jurídico do anunciante no ano anterior para zero no seguinte, e o prazo médio de aprovação jurídica da peça musical caiu de onze dias para três. Quando o diretor de operações perguntou por que a fila de aprovação tinha encolhido, Rogério mandou a planilha com data ao lado.
A proposta nova saiu no início do ano, com a unidade trocada de jingle entregue para obra com titular:
Ficha de titularidade por campanha, autoria declarada, cessão com prazo e território, contratos de intérprete anexos e parecer de originalidade: R$ 780 por ficha
Composição autoral com cadastro, melodia e letra criadas por pessoa física identificada, com registro na associação e cadastro apto no ECAD: R$ 6.200 por peça
Auditoria de acervo musical, varredura das campanhas já veiculadas por titular ausente e por trecho repetido entre marcas: R$ 9.400 por acervo
Três agências e um anunciante direto fecharam contrato anual. Onze meses depois, sem entrar em estúdio para compor doze jingles, Rogério fechou um mês acima de R$ 18 mil com 47 fichas de titularidade e 2 auditorias de acervo.
|