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Dez meses de anotação, 1.480 redações que passaram pela mesa dela em bancas de simulado, e uma coluna nova mostrando 61 folhas em que o modelo e o segundo leitor humano apontaram para lados opostos.
Marilda tem 39 anos e mora em Londrina. Quatorze anos de sala de aula em língua portuguesa, os últimos oito em banca de correção de redação, com treinamento de corretor novato incluído. O nome vai trocado aqui, e a rede que encolheu o posto dela hoje paga por folha arbitrada.
O corte chegou pela troca de ferramenta, sem aviso formal. Com o corretor automático rodando na plataforma do sistema de ensino, a triagem parou de ser leitura folha a folha e virou revisão de estimativa na tela, com a nota do modelo já preenchida em cada competência. Em oito meses, a banca de dez corretores virou quatro, e a função descrita no contrato passou de correção para conferência de nota sugerida.
Com o pagamento preso ao volume de folhas conferidas, a matemática ficou direta:
Antes, corretora de banca com leitura integral e treinamento de novatos: R$ 5.100 por mês
Depois da plataforma, conferência de nota sugerida, mesma turma, mesmo prazo: R$ 3.400 por mês
A virada aconteceu por teimosia. Marilda continuou anotando numa planilha cada folha em que a estimativa e a leitura humana se afastaram, com quatro campos: a nota do modelo por competência, a nota do segundo leitor, o trecho do texto onde a diferença nasceu e a nota final depois da arbitragem.
O retrato apareceu no décimo mês. Das 1.480 folhas, 61 tiveram distância acima de 100 pontos entre as duas leituras, e em 44 delas a diferença estava concentrada em duas competências: a que avalia a proposta de intervenção e a que avalia o projeto de texto, as duas que dependem de julgar intenção e não forma.
Marilda começou a montar um protocolo de arbitragem por competência, com o critério que sustenta cada faixa de pontos e o trecho que precisa ser citado no parecer: proposta de intervenção sem agente definido, repertório citado sem função argumentativa, tese que muda de posição no terceiro parágrafo.
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Ali o trabalho passou a ser duas entregas separadas que a rede sempre pagou embrulhadas. Uma era o tempo de percorrer a folha e marcar desvio de superfície. A outra era ler o texto que dois avaliadores leram de formas opostas, dizer qual leitura o texto sustenta e assinar a nota que fecha o desacordo.
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Com o protocolo em uso, o tempo entre a divergência e a nota final caiu de 6 dias para 2, e as duas redes que adotaram o formato passaram um semestre sem recurso de aluno acolhido contra nota de simulado. Quando a coordenação perguntou por que os recursos pararam de subir, Marilda mandou a planilha com data ao lado.
A proposta nova saiu dez semanas depois, com a unidade trocada de folha conferida para folha arbitrada:
Arbitragem de folha divergente, leitura fundamentada com trecho citado por competência: R$ 160 por folha
Parecer de divergência assinado, texto da decisão com critério nomeado e ressalva de recurso: R$ 540 por parecer
Calibração trimestral da banca, ajuste do protocolo por mudança de matriz e por desvio medido entre corretores: R$ 2.100 por trimestre
Duas redes de cursinho e um sistema de ensino municipal fecharam contrato mensal. Oito meses depois, sem conferir estimativa na tela, Marilda fechou um mês acima de R$ 10 mil com 52 folhas arbitradas e 6 pareceres de divergência.
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