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A modelo que concorre com a própria cópia

Em março de 2025, a H&M anunciou gêmeos digitais de 30 modelos, e a foto de catálogo virou disputa entre a pessoa e o arquivo.

Estúdio fotográfico de catálogo vazio, com fundo branco infinito, arara de roupas e um tripé sob luz suave.

O estúdio branco, antes da cópia

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Aos 27 anos, a modelo de catálogo Camila Rezende leu no celular, numa manhã de março de 2025, que a H&M ia criar gêmeos digitais de 30 modelos para usar em campanhas e redes sociais.

Ela fotografava havia oito anos para marcas de varejo em São Paulo, quase sempre em estúdio de fundo branco, trocando de look a cada poucos minutos. A notícia chegou pelo grupo de modelos da agência com uma pergunta de uma colega: quem ia pagar diária para uma cópia que não cansa?

O anúncio saiu pela voz de Jörgen Andersson, diretor criativo da H&M, em entrevista ao site Business of Fashion. A marca sueca contratou a empresa de tecnologia Uncut para escanear o corpo e o rosto de 30 modelos reais e montar versões digitais capazes de vestir qualquer peça numa imagem, sem estúdio, sem fotógrafo e sem a modelo presente no dia da foto.

A H&M prometeu duas regras. Cada modelo seria dona da própria cópia, podendo licenciá-la para outras marcas, e receberia pagamento sempre que o gêmeo fosse usado, em valor comparável ao de uma sessão presencial.

Camila leu a promessa pelo avesso. O catálogo de varejo é justamente o trabalho de roupa em fundo neutro, pose padrão e luz igual para centenas de peças. Nenhum pedaço da rotina dela exigia estar presente, a não ser o corpo.

Ela conhecia as regras do setor de cor. Diária fechada por tempo de estúdio, uso de imagem por prazo e por mídia, cachê extra quando a foto virava outdoor. Nenhuma dessas regras previa um arquivo que continua posando depois que a modelo vai embora.

A cópia ainda não substitui o que acontece num set com direção, movimento e equipe de maquiagem, cabelo e fotografia. Também não responde a pergunta que a H&M deixou sem número: quanto vale a diária de um arquivo.

A travessia desta edição é de uma modelo que percebeu que ia disputar vaga com o próprio escaneamento e decidiu negociar a cópia antes que outra pessoa negociasse por ela, mesmo sabendo que podia perder cliente no caminho.

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I  A história de quem atravessou

Oito anos de estúdio branco e uma cláusula nova

Do catálogo de cem peças por semana ao contrato que decide quem assina o uso da cópia.

Camila Rezende tem 27 anos, mora em São Paulo e posa para catálogo de comércio eletrônico desde 2017. O nome aqui vai trocado; a idade, a cidade e as mudanças de rotina são as dela.

A agenda dela era previsível: três ou quatro diárias por semana, em estúdios de varejistas e de marcas de moda. Rosto conhecido do público, nenhum. Rosto conhecido dos produtores de moda, vários.

Antes do anúncio: diária paga pelo tempo de estúdio, com o corpo presente em cada foto de produto

Depois da H&M: a pergunta do cliente passou a ser se a imagem podia sair de um arquivo, sem estúdio

A H&M nunca foi cliente dela. O efeito chegou por outra porta: ainda em 2025, dois clientes nacionais mandaram contratos com uma cláusula nova, pedindo autorização para usar a imagem dela em conteúdo gerado ou modificado por tecnologia, sem prazo e sem valor separado.

Camila levou os contratos à agência e recusou os dois do jeito que vieram. Propôs outra redação: uso da cópia digital só com autorização escrita por campanha, com prazo, território e preço definidos, e direito de exigir que o arquivo fosse apagado no fim.

Posar eu posso uma vez. A cópia posa para sempre, e o contrato precisa saber a diferença.

Um cliente aceitou a redação e pagou o escaneamento como trabalho à parte. O outro trocou de modelo. Ela perdeu o segundo, que respondia por uma parte grande da agenda do semestre.

A rotina ganhou uma camada que não existia. Camila passou a buscar mais trabalho de campanha com movimento, vídeo curto para redes e showroom (apresentação da coleção para compradores de lojas), tarefas em que a cópia ainda entrega pouco.

A agência dela também mudou o cadastro. Cada modelo do elenco passou a ter uma ficha dizendo se aceita ser escaneada, para que tipo de marca e com qual preço mínimo por campanha, e a ficha entra junto com o book (portfólio de fotos) em toda proposta.

Ela não sabe quanto o arquivo vai render. Até o fim de 2025, o escaneamento dela tinha sido licenciado para uma campanha só, e nenhuma agência brasileira publicou tabela de preço para uso de gêmeo digital.

 
 

II  Radar de Automação

Trinta corpos escaneados e uma lei em Nova York

A H&M transformou o corpo da modelo em ativo licenciável. Quem decide o preço desse ativo virou a pergunta central do ofício.

O radar desta edição está na fotografia de catálogo. Foto de produto repete o mesmo enquadramento centenas de vezes por coleção, com fundo neutro e pose padronizada. Tarefa repetida, com imagem de referência farta, costuma abrir a fila da automação em qualquer ofício.

O anúncio de março de 2025 dizia que os gêmeos entrariam em conteúdo para redes sociais e campanhas, com marcação avisando que a imagem foi gerada por inteligência artificial. Uma das 30 era a modelo italiana Mathilda Gvarliani, que apareceu na divulgação junto com a própria versão digital.

A reação veio de quem trabalha em volta da câmera. Sara Ziff, fundadora da Model Alliance, organização de defesa de modelos nos Estados Unidos, disse à imprensa que o plano levantava dúvidas sobre consentimento e remuneração, e lembrou que fotógrafos, maquiadores e cabeleireiros ficavam fora do acordo.

"Mesmo na reprodução mais perfeita, um elemento está ausente: o aqui e agora da obra de arte, sua existência única, no lugar em que ela se encontra."

Walter Benjamin, A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica, 1936

O filósofo alemão Walter Benjamin chamou esse elemento de aura (o valor que a presença única carrega). Ele escrevia sobre quadros copiados por fotografia; a H&M levou a pergunta para o corpo de quem posa.

Em dezembro de 2024, a governadora de Nova York, Kathy Hochul, sancionou o Fashion Workers Act (lei dos trabalhadores da moda). A lei entrou em vigor em junho de 2025 e exige consentimento escrito e específico da modelo para criar ou usar uma réplica digital dela.

A leitura muda o lugar da modelo de catálogo no mapa da automação. A cópia ataca a parte repetitiva, a foto de produto em fundo branco. Deixa com gente a parte em que a presença conta: movimento, direção ao vivo, a campanha que precisa de uma pessoa real.

A lista de quem perde trabalho cresce além da modelo. Uma foto gerada por arquivo dispensa a diária do fotógrafo, da produtora de moda, do maquiador e do assistente de luz, e nenhum deles aparece como dono de cópia no acordo anunciado pela H&M.

Para quem trabalha com imagem, o efeito aparece no contrato mais do que no set. A cláusula de uso de imagem, que antes cobria fotografias, passa a cobrir um arquivo que gera fotografias novas sem a pessoa. No Brasil, até o fim de 2025, nenhuma lei específica sobre réplica digital estava em vigor; valia a proteção geral do direito de imagem no Código Civil.

 

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III  O movimento de hoje

Três cláusulas antes de escanear o corpo

O movimento desta edição é um exercício de uma tarde para quem vende a própria imagem, voz ou estilo, seja modelo, locutor, ilustrador ou professor que grava aula, e quer saber o que já assinou sobre cópias digitais.

1. Separe os contratos ativos e procure três palavras: imagem, voz e tecnologia. Marque toda cláusula que autoriza uso sem prazo, sem território ou em qualquer mídia existente ou que venha a existir, a expressão que costuma abrir a porta para a cópia.

2. Para cada cláusula marcada, escreva a redação que você aceitaria: uso da réplica digital só com autorização por projeto, prazo em meses, preço separado da diária e direito de exigir que o arquivo seja apagado.

3. Liste os trabalhos do último ano em que sua presença mudou o resultado, como direção ao vivo, improviso ou relação com a equipe. Esse é o pedaço do ofício para oferecer mais, porque a cópia entrega pouco nele.

A objeção aparece rápido: se a cópia paga, por que recusar? Não é preciso recusar. A H&M prometeu pagar as 30 modelos pelo uso, e a cópia pode render sem diária. O risco mora no contrato que autoriza sem preço: aí a modelo concorre com a própria cópia e não recebe quando a cópia ganha.

Falta um dado na história de Camila. Ela não sabe se o cliente que trocou de modelo passou a usar imagens geradas ou só contratou alguém que assinou a cláusula aberta; a marca não respondeu à pergunta da agência. O que ela sabe é o saldo do ano: menos diárias de catálogo, mais trabalho de campanha e um arquivo escaneado com dono e preço.

Camila segue fotografando em São Paulo. A agenda encolheu no estúdio branco, e o contrato dela ganhou uma página inteira sobre a cópia.

Recalcular a rota, aqui, começa pela cláusula que você decide assinar. Aceitar a cláusula aberta e manter a agenda cheia enquanto a cópia trabalha sem preço, ou negociar a cópia por projeto e arriscar perder o cliente que não quer pagar por ela. As duas contas estão acima.

"Assinar a cópia sem preço para manter a diária, ou pôr preço na cópia e arriscar a diária?"

 
 
 
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No texto, quando o Fashion Workers Act, a lei de Nova York que exige consentimento escrito e específico pra réplica digital de modelo, entrou em vigor?

ADezembro de 2024, mesmo mês da sanção pela governadora Kathy Hochul
BMarço de 2025, junto com o anúncio da H&M
CJunho de 2025
DJaneiro de 2026

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