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A placa que a Siemens ainda põe na mão em Amberg

A fábrica de Amberg produz 13 vezes o volume de 1989 com quase o mesmo quadro. Uma etapa seguiu humana: pôr a placa nua na linha.

Mãos de luvas colocando uma placa de circuito verde, ainda sem componentes, na entrada de uma esteira de montagem automatizada.

A placa nua antes do primeiro componente

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Karl-Heinz Büttner, engenheiro e diretor da fábrica de eletrônicos da Siemens em Amberg, recebia visitantes no chão de fábrica e mostrava primeiro o que quase não se via: gente.

Amberg é uma cidade de 40 e poucos mil habitantes no Alto Palatinado, norte da Baviera. A planta da Siemens ali, inaugurada em 1989, fabrica os controladores da linha Simatic, os PLCs (controladores lógicos programáveis, o cérebro eletrônico que liga, desliga e sincroniza as máquinas de outras fábricas).

São caixas cinzentas do tamanho de um livro. Estão em linhas de engarrafamento, em elevadores, em plataformas de petróleo e em montadoras de carro pelo mundo.

Segundo a própria Siemens, em material institucional de 2019, a fábrica de Amberg passou a produzir 13 vezes o volume do ano de abertura. O quadro de funcionários, na mesma conta da empresa, seguiu perto de 1.200 pessoas, divididas em três turnos.

Pela mesma conta da Siemens, de 2019, a planta despachava milhões de produtos Simatic por ano para clientes de dezenas de países, sem auditoria externa publicada sobre esses números.

A conta assusta quem lê de fora. Treze vezes a produção com o mesmo quadro de gente parece a fábrica sem operário que os filmes prometem há décadas.

A planta tem outra particularidade. Os controladores Simatic que saem de Amberg comandam as próprias máquinas que os montam. A fábrica usa o produto que vende para gerir a linha que o produz.

E ainda assim, no começo de cada lote, alguém de jaleco pega uma placa de circuito sem nenhum componente e a coloca no trilho de entrada.

O gesto leva poucos segundos. Não exige força, não exige ferramenta e se repete centenas de vezes por turno, o perfil exato da tarefa que a indústria costuma entregar primeiro ao robô.

A Siemens trata a etapa como a única parte manual da produção, sem esconder e sem anunciar. Quem faz o gesto, por que a máquina não faz e o que os outros funcionários foram fazer explica como uma fábrica cresce treze vezes sem demitir.

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I  A história de quem atravessou

O primeiro gesto do lote

Da placa verde ao controlador pronto.

A placa nua é uma lâmina de fibra de vidro com trilhas de cobre impressas e nenhuma peça soldada. Ela chega a Amberg em pacotes, separada por modelo, e é a matéria-prima de todo controlador.

O montador do início da linha confere o modelo na tela, pega a placa e a encaixa no carregador da esteira. A partir daí, a placa só volta a encontrar mão humana na embalagem ou numa inspeção pedida pelo sistema.

Cada placa leva um código impresso, lido por scanners ao longo do caminho. O código diz à máquina seguinte qual componente pôr, em que posição e com qual programa de solda.

Em seguida vem a SMT (montagem em superfície, o método de soldar peças minúsculas direto na face da placa). As máquinas de pick and place (pega e coloca) posicionam milhares de componentes por hora, cada um menor que um grão de arroz.

Os componentes chegam enrolados em carretéis, fitas plásticas com centenas de peças em fila. Trocar o carretel vazio a tempo, sem parar a máquina, também cabe a gente de carne e osso.

Depois vêm o forno de refusão, que derrete a pasta de solda, e a inspeção óptica, uma câmera que compara a placa com o desenho original e aponta qualquer peça torta.

Na saída da esteira, o controlador montado passa por testes elétricos automáticos, recebe a carcaça e segue para a expedição, com o histórico de cada etapa gravado no sistema pelo código da placa.

Antes: em 1989, a montagem dependia de mais passos manuais, como conferências visuais e transporte de lotes entre estações

Depois: o sistema rastreia cada placa pelo código, e o funcionário cuida da entrada, da programação e da exceção

“Máquinas e computadores cuidam sozinhos de cerca de 75% da cadeia de valor.” Revista Pictures of the Future, da Siemens, 2014.

O mesmo texto da revista afirmava que a fábrica atingia 99,99885% de qualidade, ou pouco mais de 11 defeitos a cada milhão de operações.

Os 25% restantes são trabalho humano espalhado pela planta: programar as máquinas, preparar os carretéis de componentes, resolver falhas e decidir quando parar uma linha.

Há ainda a manutenção. Um bico de sucção entupido numa máquina de pick and place derruba componentes por minutos até alguém trocar a peça, e esse alguém conhece a máquina pelo barulho.

O montador da entrada segue sem nome nos registros públicos. Nem a Siemens nem a imprensa que visitou Amberg identificaram quem faz o gesto, e a empresa não divulga quantas pessoas se revezam no posto por turno. O que se sabe é a função, descrita pela própria Siemens em reportagens e vídeos da planta.

 
 

II  Radar de Automação

Por que a máquina não pega a placa

Automatizar a etapa custa mais que ela rende. Em Amberg, a variedade de modelos fez a mão humana valer mais na entrada da linha.

A fábrica não monta um produto só. Segundo a mesma revista da Siemens, em 2014, Amberg fabricava cerca de 1.000 variações de produto, e a linha trocava de modelo várias vezes ao dia.

Cada troca muda a placa de entrada. Muda o tamanho, a espessura, a posição dos furos de fixação e o lado que entra primeiro.

Um robô para pegar placas precisa de garra, câmera e programa ajustados a cada formato. Toda nova variação exige teste, calibração e tempo de linha parada.

O montador resolve a troca em segundos. Lê o modelo na tela, abre o pacote certo e encaixa a placa no sentido correto, sem que ninguém precise reprogramar nada.

Um erro dele também aparece rápido. Se a placa entra do lado errado, o scanner seguinte não lê o código e a linha avisa antes de qualquer componente ser soldado.

A engenharia de produção chama a escolha de automação seletiva (automatizar onde a repetição paga o investimento e deixar com gente onde a variedade é alta). O gesto da entrada caiu no segundo grupo.

O ganho de 13 vezes veio de outro lugar. Veio das máquinas de montagem mais rápidas, da inspeção automática e da rastreabilidade de cada placa, que corta o retrabalho e a sucata.

Veio também das pessoas. A revista Pictures of the Future, em 2014, atribuía às sugestões dos próprios funcionários cerca de 40% do ganho anual de produtividade da planta.

As sugestões nascem de quem vê a linha todo dia. O operador percebe que um carretel acaba sempre no pior momento, que uma câmera erra sob certa luz, que um ajuste poupa minutos por troca.

A fábrica paga prêmios pelas ideias aproveitadas. O funcionário de Amberg ganha pelo que observa, e não só pelo que monta.

A Siemens nunca publicou quantas sugestões viraram mudança na linha da entrada. O dado conhecido é o agregado da revista, sem detalhe por posto.

Para quem trabalha fora de fábrica, o raciocínio de Amberg serve de mapa. A tarefa que muda o tempo todo e pede julgamento rápido tende a ficar com gente. A tarefa idêntica, mil vezes por dia, é a primeira candidata à máquina.

O quadro estável de Amberg não significa que cada pessoa fez o mesmo trabalho por 30 anos. Significa que o trabalho mudou de lugar: saiu da mão que solda e foi para a cabeça que programa, confere e propõe.

 

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III  O movimento de hoje

Separe a entrada da linha

O movimento de hoje é um exercício de uma semana para descobrir qual parte do seu trabalho é a placa nua, o gesto que ainda pede você.

1. Durante 5 dias, liste as tarefas que você faz e marque quantas vezes cada uma se repete do jeito exato, sem variação.

2. Ao lado de cada tarefa, anote quantas vezes ela muda de formato: cliente diferente, arquivo diferente, pedido fora do padrão.

3. No último dia, separe as tarefas de alta repetição e baixa variação. Elas são a sua linha de montagem automática, a parte que uma ferramenta já faria.

4. Separe também as tarefas de alta variação. Elas são a sua entrada da linha, o posto que segue humano porque a troca constante sai cara para qualquer máquina.

A objeção aparece rápido: a lista de variações parece desorganização, e não valor. Em Amberg, a variedade de 1.000 modelos foi justamente o que manteve uma pessoa na entrada da esteira.

Um segundo passo pesa tanto quanto a lista. Anote, durante a mesma semana, toda melhoria que você percebeu e não propôs a ninguém.

Os funcionários de Amberg respondiam por boa parte do ganho anual da fábrica com ideias desse tipo. A sugestão escrita transforma quem executa em quem desenha o processo.

Leve as duas listas a quem decide ferramenta na sua empresa. Mostre onde a automação entra sem estragar o lote e onde a sua leitura evita o erro.

Guarde o material mesmo que nada mude agora. Ele vira histórico do ofício, com tarefa, variação e sugestão datadas, e pesa quando a empresa redistribuir o trabalho.

Karl-Heinz Büttner mostrava a visitantes uma fábrica que cresceu 13 vezes sem trocar o quadro. Na entrada da linha, uma pessoa segue pondo a placa nua no trilho.

Recalcular a rota começa pela lista da semana. Entregar à ferramenta as tarefas idênticas e ficar com a entrada da linha, onde a variação pede julgamento, ou seguir fazendo tudo à mão e disputar com a máquina a parte que ela faz melhor. As duas listas estão acima.

“Ficar com a entrada da linha e entregar o resto à ferramenta, ou seguir fazendo tudo à mão?”

 
 
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