|
Uma lei de 2014, um bairro de Roterdã e uma sentença de 2020.
O SyRI nasceu por lei em 2014, aprovado pelo parlamento holandês como ferramenta contra fraude em auxílios, moradia subsidiada e impostos. O decreto que o regulava listava 17 categorias de dados que podiam ser cruzadas.
Entravam na conta emprego, multas, dívidas, educação, aposentadoria, imóveis, seguro de saúde e consumo de água e energia. Um gasto de água baixo demais num endereço, por exemplo, podia sugerir que ninguém morava ali, ou que a família vivia em outro lugar.
O programa não rodava no país inteiro de uma vez. Prefeituras e órgãos públicos pediam um projeto, e o ministério aplicava o cruzamento a bairros escolhidos. Os bairros escolhidos eram, quase sempre, os de renda mais baixa.
Em 2019, a vez foi de Hillesluis e Bloemhof, no sul de Roterdã. Moradores, associações locais e vereadores protestaram. Em julho de 2019, a prefeitura de Roterdã suspendeu o projeto antes de o processo chegar ao fim.
Quando o algoritmo apontava alguém, o nome ia para um registro de alertas de risco, onde podia ficar até 2 anos. A pessoa não era avisada. Só descobria se um fiscal aparecesse ou se um benefício travasse.
No mesmo ano, o australiano Philip Alston, relator especial da ONU para extrema pobreza, mandou ao tribunal de Haia um parecer de amicus curiae (amigo da corte, opinião de quem não é parte do processo). Ele escreveu que o SyRI tratava os pobres como suspeitos por padrão.
|
“O sistema de bem-estar digital tem um enorme potencial de prejudicar os mais pobres e vulneráveis da sociedade.” Philip Alston, relatório ao Conselho de Direitos Humanos da ONU, 2019.
|
A corte de Haia não declarou que todo algoritmo é ilegal. Disse que o governo podia combater fraude com tecnologia, mas que o SyRI não equilibrava o objetivo com a privacidade de quem era vasculhado.
O ponto central foi a opacidade. O Estado se recusou a mostrar o modelo de risco no processo, alegando que fraudadores aprenderiam a escapar. Sem o modelo à vista, os juízes concluíram que ninguém conseguia contestar um alerta.
Em abril de 2020, o governo holandês anunciou que não recorreria. O SyRI foi desligado de vez, e os alertas guardados no registro deixaram de alimentar novas fiscalizações.
O que se sabe pouco é o efeito sobre cada pessoa marcada. O ministério nunca publicou quantos alertas o SyRI gerou nem quantos viraram fraude comprovada, e a corte não exigiu essa conta para decidir.
Maxim Februari seguiu escrevendo sobre o caso. Para ele, a vitória ficou registrada na sentença, e a pergunta sobre como fiscalizar sem a máquina ficou com os fiscais.
|