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As 260 McNuggets que a IA do McDonald's anotou

Em junho de 2024, o McDonald's desligou o pedido por voz da IBM em mais de 100 lojas. A atendente voltou ao fone.

Janela de drive-thru à noite com um fone de atendente pendurado no balcão e a tela de pedidos acesa.

O fone que voltou para a atendente

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Em junho de 2024, Mason Smoot, diretor de restaurantes do McDonald's nos Estados Unidos, assinou um memorando aos franqueados avisando que o pedido automático por voz feito com a IBM seria desligado em mais de 100 lojas até 26 de julho.

O memorando, revelado pelo site Restaurant Business e confirmado pela CNBC naquele mês, encerrava um teste de três anos. Desde 2021, quem parava no drive-thru dessas lojas falava com uma voz sintética, e não com uma pessoa.

A máquina ouvia, montava o pedido na tela e repetia o total. A atendente, que antes passava o turno de fone na cabeça, ficava livre para embalar, cobrar e entregar.

Só que a voz errava em público. Nas redes sociais, clientes passaram a gravar o próprio carro diante do alto-falante e postar o resultado.

Num vídeo que circulou no TikTok em 2024, duas amigas pediam que a máquina parasse de somar nuggets, e a conta subia até 260 McNuggets. Em outro, um sorvete chegava ao painel com bacon por cima. Num terceiro, o sistema acrescentava manteiga a um pedido que não tinha pão.

Os erros eram engraçados para quem assistia e caros para a loja. Cada pedido trocado voltava ao balcão, ocupava a fila e obrigava alguém da equipe a refazer a conversa inteira com o motorista.

Quem refazia era a atendente. Ela ouvia o cliente até a última palavra, corrigia a tela e pedia desculpas por um erro que não tinha cometido.

O McDonald's não anunciou o fim da inteligência artificial no drive-thru. O mesmo memorando dizia que a empresa seguia procurando uma solução de voz para o futuro. O recado prático, porém, era simples: em mais de 100 restaurantes, o fone voltava para uma cabeça humana.

A trajetória do executivo que comprou a aposta da voz, logo abaixo, explica por que ela parecia certa e onde ela tropeçou.

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I  A história de quem atravessou

O executivo que apostou na voz

Da sala do código ao posto de quem assina os números do banco.

Da fábrica de salgadinhos ao alto-falante do drive-thru.

Chris Kempczinski, o executivo-chefe do McDonald's desde novembro de 2019, chegou à rede de lanchonetes depois de passar por Procter & Gamble, PepsiCo e Kraft Foods, sempre em cargos de estratégia e marca.

Entrou no McDonald's em 2015 como responsável pela estratégia global e, em 2016, assumiu a operação americana. Foi nesse posto que viu de perto o peso do drive-thru, a janela por onde passa a maior parte das vendas da rede nos Estados Unidos.

O drive-thru tem uma conta dura. Cada segundo a mais por carro alonga a fila, e fila longa faz o motorista seguir até o concorrente da esquina. Velocidade, ali, vira receita direta.

Em 2019, o McDonald's comprou a Apprente, uma empresa do Vale do Silício que desenvolvia reconhecimento de voz para pedidos, e a transformou num laboratório interno, o McD Tech Labs.

Em outubro de 2021, já com Kempczinski no comando, a rede vendeu o laboratório à IBM e fechou uma parceria para levar o sistema às lojas. A IBM ficava com a engenharia, e o McDonald's com as janelas onde testar.

Antes: a atendente ouvia, digitava e repetia cada pedido

Depois: a voz sintética ouvia e montava o pedido, e a atendente corrigia o que saía errado

Em junho de 2021, numa conferência com investidores, Kempczinski contou que o sistema acertava cerca de 85% dos pedidos e que, no restante, um funcionário precisava entrar na conversa, segundo a CNBC naquele ano.

Ele também avisou que levar a tecnologia a todas as lojas americanas exigiria anos, e não meses. A previsão estava certa, só que o caminho terminou antes da escala.

Oitenta e cinco por cento de acerto parece muito numa planilha. Na janela, quer dizer um motorista contrariado a cada poucos carros.

O que Kempczinski enxergou foi o trabalho mais repetido da loja: ouvir combos, tamanhos e bebidas, centenas de vezes por turno. O que a aposta subestimou foi a parte que não se repete, o carro com rádio alto, o sotaque, a criança gritando no banco de trás, o cliente que muda de ideia no meio da frase.

O que não se sabe também precisa ser dito. Nem o McDonald's nem a IBM divulgaram a taxa final de acerto do teste, nem os nomes das atendentes que corrigiam a máquina. O registro público fica no memorando, nas reportagens e nos vídeos dos clientes.

 
 

II  Radar de Automação

A frase que a máquina corta ao meio

A voz sintética anota bem o pedido limpo. O pedido bagunçado, com interrupção e troca de ideia, ainda pede alguém que ouça até a última palavra.

O sistema do drive-thru encadeia três etapas. Primeiro transforma o som em texto, depois tenta entender a intenção do cliente e, por último, encaixa o resultado no cardápio da loja.

Cada etapa tem seu ponto fraco. O microfone do drive-thru capta motor, vento e música junto com a voz, e o texto já nasce torto. Uma palavra trocada na primeira etapa vira um item errado na terceira.

A segunda etapa sofre com a fala real. Ninguém pede como num formulário: o cliente diz um número, emenda outro, volta atrás e pergunta o preço no meio. A máquina tende a tratar cada pedaço como um item novo, e a conta incha.

Foi o que aconteceu no vídeo das 260 McNuggets. As duas clientes pediam para parar, e o sistema entendia cada apelo para parar como mais uma porção. Faltou a habilidade mais básica da atendente: perceber que a frase ainda não tinha terminado.

A terceira etapa cria um problema de confiança. Quando o painel mostra o pedido errado, o motorista não sabe se a culpa é dele ou da máquina, e fala mais alto, mais devagar, como quem conversa com um estrangeiro. A fila para.

O tropeço não foi só do McDonald's. Em 2023, a rede de restaurantes Wendy's anunciou um teste de pedido por voz com o Google Cloud, e a White Castle levou outro sistema às suas janelas. A disputa pela voz do drive-thru seguiu aberta depois do recuo de 2024.

O sotaque pesa na mesma conta. Um sistema treinado com gravações de um tipo de fala erra mais com quem fala diferente, e o drive-thru americano recebe imigrantes, turistas e idosos ao longo do mesmo turno. A atendente se ajusta ao primeiro “oi”; a máquina precisa de dados que talvez nunca tenha visto.

Em dezembro de 2023, o próprio McDonald's tinha anunciado uma parceria ampla com o Google para levar inteligência artificial às lojas. O desligamento da IBM, seis meses depois, mostrou que a tecnologia do salão andava à frente da tecnologia da janela.

Para quem trabalha em atendimento, a lição tem contorno nítido. A parte exposta é a conversa padrão, previsível, que cabe num cardápio. A parte protegida é a conversa quebrada, em que o cliente não sabe direito o que quer e o erro aparece na conta.

Há ainda um efeito menos óbvio. Com a máquina anotando os pedidos fáceis, a atendente passa a receber justamente os difíceis, e o turno dela fica mais curto em tarefas e mais pesado em atenção.

 

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III  O movimento de hoje

Ouça o pedido até a última palavra

O movimento desta edição é um exercício de uma semana para quem atende gente, por telefone, balcão, chat ou email.

1. Durante 5 dias, anote cada atendimento em que o cliente mudou de ideia, interrompeu ou pediu algo fora do roteiro. Essa lista é a sua conversa quebrada, a parte que uma voz sintética ainda erra.

2. Na mesma semana, marque os atendimentos que seguiram o roteiro do começo ao fim, sem desvio. Essa segunda lista é a conversa padrão, a que uma ferramenta já consegue anotar.

3. Ao fechar a semana, compare as duas listas. Se a conversa padrão ocupa a maior parte do seu dia, escolha uma etapa dela para entregar a uma ferramenta e use o tempo ganho nos atendimentos quebrados.

A objeção aparece rápido: os atendimentos quebrados são poucos e cansam. No McDonald's, eram eles que voltavam ao balcão, travavam a fila e viravam vídeo. O custo de um pedido mal ouvido aparece em público.

A lista de atendimentos quebrados também mostra o que você sabe fazer e a máquina não. Perceber que a frase não terminou, repetir o pedido antes de fechar a conta, notar o tom de quem está com pressa: são habilidades que nenhum treinamento escrito ensina inteiro.

Um cuidado prático ajuda no exercício. Ao lado de cada atendimento quebrado, escreva o que você fez para salvar a venda. A anotação vira prova concreta do seu trabalho quando alguém perguntar por que manter uma pessoa no fone.

Vale também cronometrar um atendimento quebrado de ponta a ponta. O tempo que você leva para desfazer um mal-entendido é o tempo que a loja perderia se uma voz sintética errasse no seu lugar.

Chris Kempczinski apostou que a voz sintética anotaria o drive-thru inteiro. O memorando de Mason Smoot mostrou que, em 2024, ela anotava bem a parte fácil e devolvia a difícil para a atendente.

Recalcular a rota, aqui, começa pelas duas listas. Entregar a conversa padrão a uma ferramenta agora e ficar com os atendimentos quebrados, ou seguir anotando tudo à mão e esperar que a próxima voz sintética erre tanto quanto a da IBM. Os dois caminhos estão acima.

“Entregar a conversa padrão à máquina e ficar com a quebrada, ou seguir anotando tudo à mão?”

 
 
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No vídeo que viralizou no TikTok em 2024, até quantos McNuggets a conta do drive-thru chegou antes das clientes desistirem do pedido?

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B260 McNuggets
C300 McNuggets
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