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Dezenove meses de caderno, 118 rodadas acompanhadas depois que o software passou a montar o questionário sozinho, e 37 delas com peso de ponderação alto o bastante para mudar a ordem dos candidatos.
Marina tem 38 anos e mora em Campinas, a quarenta minutos do instituto. Onze anos de pesquisa eleitoral, os últimos dois num turno de operação ao lado do sistema. O nome aqui vai trocado, e as duas contratantes que hoje pagam pelo laudo dela nunca tinham comprado esse serviço de ninguém.
A mudança de função veio com o contracheque remontado. Na apuração, o salário juntava base, adicional de campo em período eleitoral e prêmio por rodada entregue no prazo. No turno de operação, o adicional sumiu e o prêmio virou bônus anual do instituto inteiro.
Antes, apuração de pesquisa eleitoral com adicional de campo e prêmio por rodada: R$ 11.400 por mês
Depois do software, operação de sistema em escala administrativa, sem adicional de campo: R$ 7.200 por mês
A virada aconteceu por teimosia de quem já tinha desenhado centenas de amostras à mão. Marina passou a anotar, num caderno de plantão, cada rodada que o sistema entregou pronta, com cinco campos: qual disputa, o que estava errado no arquivo, onde a regra do tribunal tratava daquilo, quantas horas até alguém corrigir e quem corrigiu.
O retrato apareceu no fim do segundo semestre de registro. Das 118 rodadas, 37 tinham peso acima do limite que o próprio instituto definia como aceitável, 29 traziam ordem de nomes fixa da primeira à última entrevista, e 22 tinham quota do interior abaixo do previsto sem nota no arquivo. O intervalo médio até uma correção ficou em 26 horas.
O dado que mudou a conversa com a diretoria foi outro. Nas 37 rodadas de peso estourado, o intervalo médio até a correção subiu para 61 horas, porque cada uma exigia reabrir o banco de entrevistas, recalcular a ponderação e refazer a margem de erro antes da divulgação.
Marina montou um laudo de plano amostral e ponderação por rodada, com o que precisa estar checado antes de o resultado sair do instituto: qual variável carregou peso extremo, qual pergunta mudou de ordem, qual quota ficou descoberta, e quem confirmou cada ponto, com horário.
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A pesquisa eleitoral sempre teve duas entregas que o instituto pagava embrulhadas num salário de estatístico. Uma era transformar 1.600 entrevistas em percentual até o fechamento do jornal. A outra era dizer que uma rodada não podia ser divulgada, com o número do conselho embaixo da recusa.
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Com o laudo em uso numa carteira de cinco disputas estaduais, as rodadas com peso estourado caíram de 37 no semestre anterior para 4 no seguinte, e o tempo médio de correção caiu de 61 para 7 horas. Quando a diretoria perguntou de onde tinha vindo a queda de retificação enviada ao tribunal, Marina mandou a planilha com a marcação de cada rodada.
A proposta nova saiu no início do ciclo eleitoral, com a unidade trocada para rodada auditada:
Laudo de plano amostral e ponderação por rodada, com peso extremo, rotação de pergunta, quota descoberta e fonte confirmada com horário: R$ 2.300 por rodada
Auditoria de registro de pesquisa no sistema do tribunal, conferência de plano amostral, questionário e contratante antes do protocolo: R$ 7.400 por ciclo
Treinamento de leitura de pesquisa para assessoria de campanha, turma de até 12 pessoas: R$ 5.800 por turma
Um instituto regional e uma assessoria de campanha estadual fecharam contrato de ciclo. Dez meses depois, sem cobrir um plantão de apuração, Marina fechou um mês acima de R$ 21 mil com 9 laudos de rodada e 1 auditoria de registro.
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