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Como 200 engenheiros esvaziaram a mesa da Goldman
Em 2000, a Goldman Sachs tinha 600 negociadores de ações em Nova York. Em 2017, eram 2. O lote grande seguiu na mão de gente.
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A mesa que ficou com 2 cadeiras ocupadas
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Aos 52 anos, o diretor de informação da Goldman Sachs, R. Martin Chavez, subiu ao palco de um simpósio de computação da Universidade Harvard, em janeiro de 2017, e contou à plateia quantas pessoas ainda negociavam ações na mesa do banco em Nova York.
Em 2000, a mesa de ações à vista (a compra e venda direta de papéis na bolsa, sem contratos derivados) ocupava 600 negociadores. Em 2017, segundo o relato de Chavez publicado pela revista MIT Technology Review naquele ano, restavam dois.
No lugar dos outros 598 trabalhavam 200 engenheiros de computação, que escreviam e vigiavam os programas responsáveis pelas ordens dos clientes.
A cena antiga é conhecida de filme. Gente de gravata gritando ao telefone, papel pelo chão, um operador berrando o preço para outro do lado oposto da sala. Cada ordem de cliente passava por uma voz humana antes de chegar à bolsa.
A cena de 2017 era silenciosa. Uma ordem grande de um fundo entrava no sistema, o algoritmo (a sequência de instruções que o computador segue sozinho) picava o pedido em pedaços menores e espalhava as compras ao longo do pregão para não mexer no preço.
Nada de telefone, nada de grito. O cliente recebia a confirmação e um relatório com o preço médio pago, e nenhum negociador precisava tocar na operação.
Só que a mesa não zerou. Os dois que ficaram, e as equipes de vendas que atendiam os grandes fundos, guardavam um tipo de ordem que o banco não entregava ao programa sem antes conversar com alguém: o bloco, o lote enorme de ações de uma só empresa que um investidor quer vender de uma vez.
Um bloco desses, despejado na bolsa sem cuidado, derruba a cotação antes de terminar de ser vendido. Quem compra do outro lado percebe a pressa do vendedor e cobra caro por ela.
A pergunta que ficou na sala vazia vale para qualquer profissão invadida por software: quando a máquina assume o trabalho repetido, o que sobra para o humano que continua sentado ali? A trajetória do próprio Chavez, logo abaixo, mostra uma resposta.
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I A história de quem atravessou
O programador na sala dos negociadores
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Da sala do código ao posto de quem assina os números do banco.
R. Martin Chavez, o Marty dos colegas, nasceu em 1964 em Albuquerque, no Novo México, e chegou a Wall Street por um caminho incomum. Estudou bioquímica e ciência da computação em Harvard e fez doutorado em informática médica em Stanford.
Entrou na Goldman Sachs em 1993 para construir modelos de risco de derivativos de energia (contratos cujo valor depende do preço futuro do petróleo, do gás ou da eletricidade). Era o programador numa sala dominada por negociadores.
Anos depois saiu para fundar empresas de software financeiro, entre elas a Kiodex, que vendia ferramentas de controle de risco de commodities (matérias-primas negociadas em bolsa). Voltou ao banco em 2005.
Na volta, assumiu cargos na área de negociação e, em 2014, virou o diretor de informação da Goldman, responsável pela tecnologia do banco inteiro. Foi nesse posto que acompanhou o esvaziamento da mesa de ações.
Antes: a ordem do cliente passava pela voz do negociador
Depois: a ordem passava pelo código, e o engenheiro vigiava o código
A palestra de Harvard deu a escala da mudança. Segundo a reportagem da MIT Technology Review de 2017, Chavez contou que cerca de 9 mil dos 36 mil funcionários da Goldman já eram engenheiros de computação.
Ele também descreveu a conta que o banco aplicava a outras mesas. Em partes da negociação de câmbio (a compra e venda de moedas estrangeiras), cada quatro operadores podiam ser trocados por um engenheiro, segundo o mesmo relato publicado pela MIT Technology Review.
Ainda em 2017, meses depois da palestra, Chavez virou diretor financeiro da Goldman Sachs. O programador que tinha entrado para escrever modelos de risco passou a assinar os números do banco diante dos acionistas.
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A mesa de ações perdeu 598 cadeiras. O homem que explicou a perda tinha subido justamente pela cadeira do código.
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O que Chavez levou para cima foi uma forma de olhar o trabalho: separar o que se repete, e por essa razão vira programa, do que depende de conversa, risco e confiança entre pessoas.
Na mesa de ações, a parte repetida era a execução das ordens pequenas e médias. A parte de conversa era o bloco, o momento em que um fundo liga para o banco querendo se desfazer de uma posição inteira sem que o mercado perceba antes da hora.
O que não se sabe também precisa ser dito. A Goldman nunca publicou os nomes dos dois negociadores que ficaram, nem detalhou a rotina de cada um, e a reportagem não os identificou. O que existe é a conta de Chavez e a descrição geral da mesa, e por essa razão a história deles segue sem rosto.
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II Radar de Automação
O lote que o robô não vende sozinho
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A máquina executa bem a ordem que ninguém nota. O bloco grande é a ordem que todo mundo nota, e por essa razão ainda passa por uma conversa.
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A automação que esvaziou a mesa da Goldman atacou a execução: pegar uma ordem já decidida pelo cliente e cumpri-la pelo melhor preço possível, picada em pedaços, ao longo do pregão (a sessão diária de negociação da bolsa).
Os programas que fazem esse trabalho seguem metas fáceis de medir. Um dos mais comuns persegue o VWAP (preço médio ponderado pelo volume, a média do preço do dia pesada pela quantidade negociada em cada momento). Se o robô compra perto dessa média, o cliente fica satisfeito.
O bloco foge dessa lógica. Quando um fundo quer vender milhões de ações de uma só empresa, a quantidade é grande demais para se esconder no movimento normal da bolsa. Picar o lote leva dias e, durante esses dias, quem observa os negócios percebe o vendedor e passa a cobrar mais barato.
Por esse motivo o bloco costuma ser negociado por telefone, fora da tela. O banco liga para poucos compradores de confiança, oferece o lote inteiro com desconto sobre a última cotação e fecha tudo de uma vez, muitas vezes depois do encerramento da bolsa.
Cada etapa dessa ligação exige julgamento: quem chamar primeiro, quanto contar, que desconto oferecer, se o banco compra o lote com o próprio dinheiro e assume o risco de revendê-lo. Uma escolha errada vaza a informação e derruba a cotação antes do negócio.
Março de 2021 deu o exemplo mais visível. A Archegos Capital, fundo do investidor Bill Hwang, deixou de cobrir as perdas nas apostas que fazia com dinheiro emprestado de bancos. A Goldman Sachs, uma das credoras, vendeu em blocos as ações que garantiam a dívida, entre elas papéis da ViacomCBS e da Discovery.
A Goldman vendeu cedo e saiu com perdas pequenas, segundo a cobertura da Bloomberg e do Financial Times naquele ano. O Credit Suisse, que demorou a vender, ficou com um prejuízo bilionário. A diferença esteve na decisão de quem ligar e quando, tomada por gente.
Para quem trabalha fora do mercado financeiro, o recado tem contorno nítido. A parte exposta é o fluxo: tarefas pequenas, repetidas, com meta medida por um número. A parte protegida é a operação rara e grande, em que o erro custa caro e a informação vale ouro.
Há também um efeito menos óbvio. Com o fluxo automatizado, quem ficou na mesa responde por decisões mais concentradas: menos ordens passam pelas mãos dele, e cada uma pesa muito mais no resultado do banco.
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