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Dois anos de caderno, 7.412 exames que passaram pela fila dele em três serviços, e 96 deles saíram com conclusão sem nome de médico identificável.
Marcelo tem 43 anos e mora em Curitiba. Dezoito anos em radiologia, os últimos sete em plantão remoto para uma empresa que atende pronto atendimento no interior do Paraná. O nome aqui vai trocado, e dois dos serviços que cortaram o valor por laudo dele hoje pagam por parecer de retaguarda.
O corte chegou junto com a primeira ferramenta de triagem que a diretoria clínica contratou, sem conversa prévia. Com a fila ordenada e o rascunho de descrição pronto antes da meia-noite, a leitura virou conferência do que o algoritmo marcou. Em quatorze meses, a média dele caiu de 41 laudos por turno para 26, e o contrato passou de emissão de laudo para validação de laudo assistido.
Com o pagamento preso ao volume de laudos emitidos, a matemática ficou direta:
Antes, plantão remoto com emissão de laudo por exame nos três serviços: R$ 21.400 por mês
Depois da triagem por algoritmo, validação da fila triada e ajuste de protocolo por chamado: R$ 8.900 por mês
A virada aconteceu por teimosia. Marcelo continuou anotando num caderno de plantão cada exame da fila que passou por ele, com cinco campos: qual exame era, o que a triagem marcou, qual foi a conclusão final, quem assinou o documento entregue, e quantas horas passaram até o aviso ao solicitante.
O retrato apareceu no fim do segundo ano. Dos 7.412 exames, 96 saíram sem nome de médico identificável, 318 achados urgentes levaram mais de seis horas para chegar ao solicitante, e em 211 ele discordou da triagem, quase sempre na direção do falso negativo, o exame marcado como normal que tinha achado.
Marcelo começou a montar um parecer de retaguarda por caso, com o que precisa estar documentado antes do laudo sair: a marcação da triagem, o que o médico manteve, o que ele corrigiu, a comparação com o exame anterior, o horário do aviso urgente e qual certificado digital assinou a conclusão.
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Ali o trabalho passou a ser duas entregas separadas que o serviço sempre pagou embrulhadas. Uma era o tempo de olhar a imagem e apontar o que destoa. A outra era garantir que cada apontamento virasse conclusão assinada, com discordância registrada e rastro que sobrevive a uma perícia quatro anos depois.
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Com o parecer em uso, o serviço saiu de 96 conclusões sem nome identificável no ano anterior para três no seguinte, e o tempo médio entre achado urgente e aviso caiu de 6 horas e 40 minutos para 52 minutos. Quando o diretor clínico perguntou por que o tempo tinha virado, Marcelo mandou a planilha com data ao lado.
A proposta nova saiu no início do ano, com a unidade trocada para conclusão sustentada:
Parecer de retaguarda por caso discordante, registro da marcação, da correção, do aviso ao solicitante e do certificado que assinou: R$ 480 por parecer
Revisão de protocolo de triagem, teste contra a base de exames já laudados, com relatório de falso negativo: R$ 9.600 por ciclo
Auditoria de acervo de laudos, varredura dos exames já entregues por conclusão sem assinatura rastreável: R$ 14.800 por acervo
Três serviços fecharam contrato anual. Dez meses depois, sem cobrir um plantão de validação, Marcelo fechou um mês acima de R$ 23 mil com 28 pareceres de retaguarda e 1 auditoria de acervo.
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