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O perfumista que corrigiu a IA do Boticário

Em 2019, O Boticário lançou 2 perfumes sugeridos pela Philyra, a IA da IBM e da Symrise. A última palavra ficou com um nariz treinado.

Mesa de laboratório de perfumaria com frascos de vidro âmbar, fitas olfativas de papel e uma balança de precisão.

A mesa onde a fórmula da máquina ganha o ajuste

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Em 2018, o perfumista David Apel, veterano de mais de três décadas na Symrise, abriu na tela de Nova York uma fórmula que nenhum colega tinha escrito. Quem sugeria a mistura era a Philyra, sistema de inteligência artificial criado pela IBM com a fabricante alemã de fragrâncias.

A lista chegava como todas as outras: ingredientes, quantidades em gramas, proporções somando cem por cento. A diferença estava na origem. O programa tinha juntado matérias-primas que Apel, por hábito de ofício, raramente punha no mesmo frasco.

O cliente do projeto era brasileiro. O Boticário queria perfumes para um público jovem e topou um teste que a própria IBM apresentou como pioneiro: levar às lojas uma fragrância nascida de sugestão de máquina.

Apel mandou pesar a fórmula no laboratório e cheirou a fita olfativa (a tira de papel onde o perfumista prova o cheiro). A proposta trazia uma combinação inesperada, mas ainda não estava pronta para o frasco.

Faltava o que nenhum banco de dados guarda: como o perfume ia se comportar na pele de alguém no calor de uma tarde brasileira, quanto tempo a abertura aguentava, qual nota (cada cheiro reconhecível dentro da mistura) começava a incomodar depois de duas horas.

Ele começou a mexer. Tirou um pouco de um material, aumentou outro, provou de novo. O ciclo se repetiu por várias rodadas, como em qualquer criação dele desde o começo da carreira.

Cada rodada pedia uma nova pesagem, um dia de descanso para a mistura assentar e uma prova em pele de voluntário, porque a fita de papel mente sobre o que acontece no corpo.

Em 2019, O Boticário pôs nas prateleiras dois perfumes criados a partir das sugestões da Philyra. As fórmulas que chegaram ao consumidor passaram pelas mãos de perfumistas da Symrise antes de sair da fábrica.

A pergunta que ficou no laboratório vale para qualquer ofício atravessado por IA: se a máquina já propõe a fórmula, o que exatamente o perfumista passou a vender? A trajetória de Apel, logo abaixo, responde.

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I  A história de quem atravessou

O último ajuste de David Apel

Da primeira versão escrita de memória ao posto de quem escolhe e assina a fórmula final.

David Apel foi o primeiro perfumista da Symrise a trabalhar com a Philyra como colega de laboratório. A IBM e a Symrise anunciaram a parceria em outubro de 2018, e coube a ele explicar à imprensa como o sistema entrava no processo.

Antes do projeto, o dia dele seguia um roteiro conhecido do ofício. O cliente mandava o briefing (o pedido escrito com público, preço e sensação desejada), e Apel tirava a primeira versão da memória: centenas de materiais que ele reconhece de olhos fechados.

Com a Philyra, a primeira versão passou a sair da máquina. O sistema recebia o público-alvo e o limite de custo e devolvia fórmulas candidatas, algumas com pares de ingredientes que a tradição considerava improváveis.

Antes da Philyra: Apel escrevia a primeira versão e refinava até o frasco

Depois da Philyra: a primeira versão chegava pronta, e cabia a ele escolher, cortar e reescrever

O trabalho que sobrou para ele mudou de direção. Ele passou a ler várias candidatas, descartar a maioria e investir horas na que tinha potencial. O ajuste final cuidava do equilíbrio entre as notas, da dosagem de cada material e da estabilidade (o perfume não mudar de cor nem de cheiro no frasco ao longo dos meses).

A troca também mexeu no ritmo da semana. Apel recebia mais caminhos para avaliar do que conseguiria inventar sozinho, e o tempo que antes ia para tentativa às cegas passou a ir para comparação entre propostas concretas.

Havia ainda a parte que nenhum programa assume. Toda fórmula comercial precisa respeitar os limites da IFRA (International Fragrance Association, a entidade que define quanto de cada ingrediente pode ir na pele), e alguém responde por ela diante do cliente.

A máquina escrevia a primeira versão. O frasco só saía com a última, e a última passava pelo nariz de Apel.

Nas entrevistas da época, Apel tratou a Philyra como ponto de partida, nunca como autora. O sistema servia para empurrar o perfumista para fora dos caminhos que ele já repetia, e a escolha do que ia ao mercado continuava humana.

A resposta à pergunta do laboratório, portanto, ficou clara no caso dele. O perfumista passou a vender julgamento: decidir qual das propostas merece existir, ajustar até ela funcionar na pele e responder pelo resultado.

O que não se sabe também precisa ser dito. Nem a Symrise nem O Boticário divulgaram quantas rodadas de ajuste cada fórmula levou, nem quanto da composição final saiu igual à sugestão da máquina, e por essa razão não dá para medir a fatia de cada um no frasco.

 
 

II  Radar de Automação

A máquina que não sente cheiro

A Philyra aprendeu a combinar ingredientes lendo fórmulas, sem nunca cheirar nenhuma. O teste na pele, a segurança e a assinatura seguiram com gente.

O radar desta edição está na perfumaria. Ao apresentar o projeto em 2018, a IBM Research informou que a Philyra foi treinada com cerca de 1,7 milhão de fórmulas do acervo da Symrise, cruzadas com dados de vendas e de preferência por região e faixa etária.

Com esse material, o sistema aprende quais combinações já existem e onde há espaço vazio. Depois sugere misturas que fogem do padrão, mas que o modelo calcula como prováveis de agradar ao público pedido pelo cliente.

O ponto cego é físico. A Philyra trabalha com números e nomes de ingredientes. Não tem olfato, não sente a pele esquentar, não percebe quando uma nota de fundo (o cheiro que fica por último, horas depois) pesa demais.

A etapa que ela acelera, então, é a de busca. Um perfumista experiente testa um número limitado de ideias por semana; a máquina devolve dezenas de candidatas em minutos, e o gargalo passa a ser a avaliação humana.

A velocidade muda a conta de custo do laboratório. Cada fórmula candidata ainda precisa ser pesada, misturada e provada por alguém, e o tempo do perfumista sênior continua sendo o recurso mais caro da cadeia. A máquina não barateia a prova; ela aumenta a quantidade de provas que valem a pena.

A Symrise não ficou sozinha na corrida. Em 2019, a suíça Givaudan apresentou o Carto, uma ferramenta digital que ajuda o perfumista a montar e testar fórmulas mais depressa. O desenho se repete: a máquina encurta o caminho até a primeira versão, e o nariz decide a última.

Para quem trabalha em criação, o recado tem contorno nítido. A parte exposta é a geração de opções em volume, que antes ocupava semanas de tentativa. A parte protegida é o critério para escolher, a responsabilidade técnica e o conhecimento do corpo de quem vai usar o produto.

Há também um efeito menos óbvio. Com mais propostas chegando à mesa, o profissional precisa dizer não com mais frequência e com mais rapidez, e quem não tem critério claro se afoga nas opções que a máquina entrega.

Vale notar o que o caso brasileiro mostrou ao mercado. A marca usou a novidade como argumento de lançamento, contou ao consumidor que havia IA na origem e, mesmo assim, manteve o perfumista no centro da explicação sobre a qualidade do produto.

 

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III  O movimento de hoje

O teste do nariz no seu ofício

O movimento desta edição é um exercício de uma semana para quem cria, projeta, escreve ou desenvolve produto e já recebe sugestões prontas de uma ferramenta de IA.

1. Durante 5 dias, guarde cada proposta que a ferramenta gerou para o seu trabalho. Anote quais você usou sem mudar, quais ajustou e quais descartou.

2. No fim da semana, escreva junto de cada ajuste o motivo em uma frase: o que estava errado, o que faltava, o que o cliente nunca aceitaria. Essas frases são o seu critério, o equivalente ao nariz de Apel.

3. Junte os motivos numa lista curta e leve ao gestor ou ao cliente como serviço: revisão e decisão sobre o que a máquina propõe, com prazo e responsabilidade pelo resultado.

A objeção aparece rápido: se a ferramenta faz a primeira versão, o cliente pode achar que o resto vale pouco. Na perfumaria, a experiência foi oposta. O Boticário contratou a Symrise inteira para o projeto, máquina e perfumistas, porque a sugestão sozinha não chegava ao frasco.

A lista de motivos também protege você do risco contrário. Quem aceita tudo que a ferramenta entrega vira revisor de carimbo, e o cliente percebe a diferença quando o produto falha na rua.

Um cuidado prático ajuda no exercício: guarde as propostas originais junto das versões ajustadas. A comparação lado a lado vira prova concreta do seu trabalho quando alguém perguntar o que você acrescentou ao que a ferramenta já tinha feito.

David Apel segue associado à Philyra como o perfumista que mostrou o sistema ao mundo. A lição do caso dele cabe numa linha: a máquina ampliou o cardápio, e o valor dele migrou para a escolha.

Recalcular a rota, aqui, começa pela lista de motivos. Vender ao cliente o julgamento sobre as propostas da máquina, e cobrar pela escolha e pelo ajuste final, ou seguir entregando a primeira versão por hora e competir com uma ferramenta que faz dezenas em minutos. Os dois caminhos estão acima.

"Vender a escolha e o ajuste final, ou seguir vendendo a primeira versão por hora?"

 
 
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