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O público que a Meta escolhe e o anúncio que sobrou

Desde 2022 as campanhas Advantage+ escolhem sozinhas quem vê o anúncio, e o gestor passou a vender o criativo e a oferta.

Mesa de trabalho à noite com um celular num tripé, um pote de suplemento sob luz lateral e folhas de roteiro espalhadas ao lado de um monitor apagado.

O público sai pronto, o anúncio não

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Aos 36 anos, o gestor de tráfego Rafael Tavares Moura desligou, numa segunda-feira de novembro de 2023, os 14 conjuntos de anúncios que tinha montado à mão para uma loja de suplementos de Curitiba e deixou uma campanha só rodando, sem idade, sem interesse e sem cidade escolhida por ele.

Durante seis anos, a planilha dele foi o produto. Cada cliente recebia uma árvore de públicos: mulheres de 25 a 34 que curtiam corrida, homens de 30 a 45 interessados em musculação, compradores dos últimos 180 dias excluídos, semelhantes de 1% sobre a base de clientes.

Em agosto de 2022, a Meta lançou as Advantage+ Shopping Campaigns (campanhas de compra Advantage+, o formato em que a própria plataforma escolhe quem vê o anúncio). O anunciante entrega orçamento, país, criativos e o evento de compra; a máquina decide o resto.

A mudança tinha raiz técnica anterior. Depois que a Apple deu ao usuário do iPhone, no iOS 14.5, em abril de 2021, a opção de recusar o rastreamento entre aplicativos, a Meta perdeu parte do sinal que alimentava a segmentação fina e passou a apostar em modelos que acham o comprador sem receber a descrição dele.

Rafael viu a parte dele no processo encolher na tela. O campo de público, onde ele gastava tardes, virou uma caixa quase vazia. O cliente começou a perguntar, com razão, pelo que estava pagando R$ 3.500 por mês.

A resposta saiu de outro lugar da conta. O algoritmo testa dez anúncios e acha o melhor entre eles, mas não escreve o décimo primeiro, não sabe se frete grátis vende mais que 10% de desconto e não conversa com o cliente que devolveu o pote.

A travessia de hoje é de um gestor que parou de vender segmentação, passou a vender criativo e oferta com resultado de teste na mão e dobrou o valor do contrato com pouco mais da metade dos clientes.

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I  A história de quem atravessou

Dos 14 públicos à esteira de 40 anúncios por mês

Dezoito meses trocando segmentação por produção de criativo, 11 clientes reduzidos a 6 e o contrato médio saindo de R$ 3.500 para R$ 7.200.

Rafael Tavares Moura tem 36 anos, mora em Curitiba e compra mídia paga desde 2017, quando largou o balcão de uma agência de eventos. O nome aqui vai trocado, e os clientes seguem os mesmos lojistas de comércio eletrônico que ele atendia antes.

O primeiro mês da campanha única assustou pelo motivo contrário ao esperado. O custo por compra da loja de suplementos caiu de R$ 61 para R$ 48, sem que ele mexesse em nada além de juntar os conjuntos. O relatório melhorou, o trabalho dele diminuiu, e o cliente notou as duas mudanças na mesma reunião.

Antes, 2022: 14 conjuntos segmentados, 6 anúncios no ar e o custo por compra a R$ 61

Depois da campanha Advantage+, 2023: 1 campanha, os mesmos 6 anúncios e o custo por compra a R$ 48

A virada veio no terceiro mês. Os seis anúncios cansaram: a frequência (quantas vezes a mesma pessoa viu o anúncio) passou de 4, e o custo por compra voltou a R$ 66. Mexer no público já não era opção. A única alavanca que sobrava na mão dele era o material que entrava na campanha.

Rafael montou uma esteira de 40 peças por mês para cada cliente: 10 ganchos diferentes (a primeira frase do texto ou os três primeiros segundos do vídeo), cada um em quatro formatos, gravados com o dono da loja, com cliente real e com o produto sobre a mesa.

O retrato apareceu depois de seis meses. Das 240 peças que a loja de suplementos pôs no ar, 19 concentraram a maior parte da verba que o algoritmo distribuiu, e 12 dessas 19 nasceram de frases copiadas de avaliações de clientes, sem ideia nenhuma da agência.

O gestor de tráfego cobrava duas tarefas no mesmo contrato. Uma era escolher quem via o anúncio, e a Meta passou a fazer essa parte sozinha, com mais sinal do que qualquer planilha. A outra era decidir o que o anúncio dizia e o que ele oferecia, e essa continua dependendo de alguém que conversa com o cliente do cliente.

Com os números do semestre na mesa, ele refez a proposta dos 11 clientes. Cinco recusaram e saíram. Os seis que ficaram pagam por produção e teste, e a taxa de gestão de conta virou a menor linha da fatura.

A proposta nova saiu com a unidade trocada para peça testada:

Pacote de 40 criativos por mês, com roteiro, gravação orientada e relatório de quais ganchos seguraram verba: R$ 4.800

Teste de oferta em duas rodadas, com frete, kit, brinde ou parcelamento e leitura de custo por compra por variação: R$ 1.900 por rodada

Operação da campanha Advantage+, com orçamento e regra de exclusão de clientes atuais: R$ 1.200 fixo

Dezoito meses depois da segunda-feira em que desligou os conjuntos, com seis clientes em vez de 11, Rafael fechou um mês em R$ 43,2 mil de faturamento, contra R$ 38,5 mil no mesmo mês do ano anterior, trabalhando duas tardes a menos por semana.

 
 

II  Radar de Automação

Menlo Park, 2022: a caixa de público que ficou vazia

A automação não apagou o gestor de tráfego. Ela apagou a escolha do público, deixou exposta a parte que depende de alguém inventar o anúncio e a oferta, e transformou em serviço cobrado à parte o que antes vinha escondido dentro da taxa de gestão.

O radar de hoje está na segmentação. Idade, gênero, cidade, interesse e comportamento de compra são campos de formulário, e um modelo treinado com bilhões de cliques escolhe a combinação melhor do que uma pessoa testando uma variável por semana.

A Meta, dona de Facebook e Instagram, com sede em Menlo Park, na Califórnia, anunciou as Advantage+ Shopping Campaigns em agosto de 2022, primeiro para anunciantes de comércio eletrônico. Em 2023, o selo Advantage+ chegou a público, posicionamento e criativo, e a opção automática passou a vir marcada de fábrica em quase toda etapa da configuração.

A pressão veio da Apple. Com o App Tracking Transparency (a janela que pergunta se o aplicativo pode rastrear o usuário em outros apps), lançado no iOS 14.5, a Meta perdeu parte do dado que ligava o clique no anúncio à compra no site. Em fevereiro de 2022, o diretor financeiro da Meta, David Wehner, disse a investidores que a mudança custaria cerca de US$ 10 bilhões em receita naquele ano.

O efeito apareceu no painel. O público detalhado, vitrine do bom gestor, virou sugestão que o sistema pode ignorar. Em dezembro de 2024, a engenharia da Meta descreveu o Andromeda, sistema que escolhe entre milhares de anúncios candidatos para cada pessoa. O gargalo mudou de lugar: falta anúncio para escolher, e público sobra.

"Quase qualquer pergunta pode ser respondida, de forma barata, rápida e definitiva, por uma campanha de teste."

Claude C. Hopkins, Scientific Advertising, 1923

Hopkins escreveu a frase quando o teste custava meses de cupom devolvido pelo correio. Hoje a campanha roda o teste sozinha, em dias, e aponta o vencedor. Ela só não coloca na disputa um anúncio que ninguém escreveu, nem uma oferta que ninguém montou.

O teste que Rafael rodou na loja de suplementos, em duas rodadas de 14 dias com os mesmos criativos, mostra onde a máquina para:

Oferta com 10% de desconto, custo por compra de R$ 54

Oferta com frete grátis acima de R$ 199, custo por compra de R$ 41

Oferta de kit com dois potes e coqueteleira, custo por compra de R$ 39 e ticket médio 30% maior

A campanha achou o público de cada variação sem ajuda. Quem inventou o kit com coqueteleira foi o dono da loja, numa conversa sobre estoque parado, e quem transformou a conversa em teste com prazo e custo medido foi o gestor.

Quem defende o contrato pela configuração de público disputa uma tarefa que a Meta já marca como padrão. Quem é pago por peça testada entrega uma lista de ganchos e ofertas vencedoras que o cliente reaproveita no email, na loja e na embalagem.

 

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III  O movimento de hoje

Dez ganchos, duas ofertas e a coluna do custo

O movimento de hoje cabe numa planilha de quatro colunas, que separa o trabalho que a campanha já faz do trabalho que só chega nela se alguém produzir.

1. Abra a conta de um cliente, ou a sua, e liste os anúncios ativos em quatro colunas: o gancho (a primeira frase ou os três primeiros segundos), o formato, a oferta e o custo por compra dos últimos 30 dias. Se a lista couber em menos de dez linhas, a campanha tem pouco material para escolher.

2. Leia 50 avaliações de clientes do produto, na loja, no marketplace (a vitrine de vários vendedores) ou no atendimento, e copie as frases exatas que falam de problema resolvido. Transforme dez delas em ganchos novos, sem polir a linguagem de quem escreveu.

3. Escolha duas ofertas que mudam a conta do comprador, além do preço: frete, kit, brinde, parcelamento ou garantia. Rode as duas com os mesmos criativos por 14 dias e anote o custo por compra e o ticket médio de cada uma.

A recusa aparece rápido: o cliente diz que a agência anterior cobrava só a gestão, e que vídeo gravado no celular parece amador. A resposta de Rafael é a planilha: a peça gravada pelo dono da loja, na cozinha, com o pote na mão, foi a que mais segurou verba no semestre.

A conta segue aberta do lado da Meta. A empresa não publica, por anunciante, quanto do resultado vem da escolha de público e quanto vem do criativo, e o painel mostra só a soma da campanha. Sem esse recorte, ninguém separa com precisão o mérito da máquina e o do gestor, e cada agência argumenta com o próprio histórico de conta.

Rafael segue gestor de tráfego, sem troca de profissão, com o mesmo olho para orçamento mal distribuído e pixel quebrado. O que ele trocou foi a linha do contrato: saiu a hora paga para montar público, entrou a peça testada com o custo por compra ao lado.

Recalcular a rota, aqui, começa por uma escolha que cabe na próxima reunião com cliente. Continuar cobrando pela gestão da conta, aceitando que a Meta já marca o público automático como padrão, ou cobrar por peça testada, assumindo a esteira de ganchos, o teste de oferta e a conversa com o dono da loja sobre o que ele vende de verdade. As duas contas estão acima.

"Quanto da minha taxa pagava a escolha do público, e quanto pagava o anúncio que a campanha não sabe escrever?"

 
 
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Começar pelo dia 1 →

 
Quiz da edição

Das 240 peças que a loja de suplementos pôs no ar ao longo de seis meses, quantas concentraram a maior parte da verba distribuída pelo algoritmo?

A12
B14
C19
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