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Catorze meses de interrogatório, 3.180 programas de fechamento noturno abertos um a um, e 19 regras de negócio rodando todo dia sem uma linha de documentação no banco.
Sérgio Baptista tem 52 anos e mora em Osasco, a cinquenta minutos do prédio de tecnologia do banco onde entrou como estagiário. Trinta e um anos de casa, os últimos onze no núcleo de contas correntes. O nome aqui vai trocado, e as duas instituições que hoje pagam pelo trabalho dele nunca tinham comprado esse serviço.
A mudança de função veio com o programa de modernização aprovado pela diretoria. No contrato antigo, o pagamento juntava plantão noturno, correção de programa quebrado e reescrita de rotina pedida pela área de negócio. No desenho novo, a reescrita foi para a ferramenta e para o time de Java, e sobrou o plantão.
Antes, salário de analista sênior de mainframe com escala de plantão noturno e adicional: R$ 18.400 por mês
Depois da ferramenta de conversão, mesma função sem a fila de reescrita, com adicional de plantão reduzido: R$ 13.900 por mês
A virada veio da teimosia de quem já tinha explicado o mesmo cálculo para seis gerentes. Sérgio passou a registrar, numa planilha simples, cada programa do fechamento noturno com cinco campos: qual decisão o código toma, qual valor ou percentual aplica, qual área responde por ela hoje, qual documento sustenta o número, e o que acontece com o cliente se o trecho for removido.
O retrato apareceu no fim do primeiro ano de planilha. Dos 3.180 programas, 412 tomavam decisão de negócio própria, 187 aplicavam percentual ou limite fixo escrito direto no código, e 19 desses valores não tinham norma, circular, contrato ou ata que explicasse a origem. O 0,7% do programa de 1987 era um deles: desconto aplicado a contas de convênio de uma empresa comprada pelo banco em 1991.
Sérgio montou então um dossiê por regra, com o que precisa estar registrado para uma decisão ser convertida com segurança: qual trecho de código a implementa, qual área assina hoje, qual documento sustenta o valor e qual o impacto financeiro mensal se ela deixar de rodar.
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O banco sempre teve duas coisas dentro do mesmo programa, pagas embrulhadas num salário de manutenção. Uma era o código, que qualquer tradutor lê. A outra era a decisão de negócio tomada há trinta anos por gente aposentada, que só existe escrita em COBOL e em nenhum outro lugar do mundo.
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Com o dossiê em uso, a conversão de dois módulos parada havia sete meses saiu do papel: o time de Java recebeu a regra escrita antes do código traduzido, e o teste de paridade deixou de acusar diferença de centavos. Quando o diretor de tecnologia perguntou por que aquela fila tinha destravado, Sérgio mandou o dossiê das 19 regras.
A proposta nova saiu no trimestre seguinte, com a unidade trocada para regra assinada:
Levantamento de regra de negócio por módulo crítico, com trecho de código, área responsável, documento de origem e impacto: R$ 22.000 por módulo
Dossiê de paridade para conversão de COBOL para Java, com casos de teste derivados da regra: R$ 16.500 por sistema
Formação de time de negócio em leitura de código legado, turma de até 10 pessoas: R$ 7.800 por turma
Um banco médio e uma processadora de cartões fecharam contrato de ano. Dez meses depois, sem abrir um chamado de plantão noturno, Sérgio fechou um mês em R$ 38 mil com 1 levantamento de módulo e 1 dossiê de paridade.
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