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Os 50 mil que ficaram na Foxconn de Kunshan
Em 2016, a fábrica de Kunshan caiu de 110 mil para 50 mil operários com os robôs. Quem ficou foi cuidar da garra.
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A garra que alguém ainda precisa calibrar
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Aos 61 anos, o fundador da Foxconn, Terry Gou, contou a funcionários numa festa da empresa em julho de 2011 que pretendia ter 1 milhão de robôs nas fábricas em três anos, segundo a agência Reuters naquele mês.
A Foxconn monta celulares, consoles e computadores para marcas como Apple, Sony e Dell. Na China continental, era dona da maior força de trabalho fabril privada do país, espalhada por cidades inteiras construídas em volta das linhas de montagem.
Gou tinha pressa por um motivo simples. Os salários nas províncias do litoral subiam ano após ano, e cada aumento comia a margem apertada de quem monta aparelho para marca alheia.
Os robôs da casa ganharam apelido interno, Foxbot (robô feito pela própria Foxconn). Começaram pelas tarefas que cansam gente: pintar, soldar, polir carcaça e apertar parafuso.
O prazo de três anos passou sem que a empresa anunciasse a meta cumprida. A troca seguiu em silêncio, linha a linha, sem data de inauguração e sem fotografia.
Até que uma cidade pôs a troca no papel. Kunshan, polo industrial vizinho de Xangai, na província de Jiangsu, abrigava uma das grandes fábricas da Foxconn e dezenas de fornecedores taiwaneses em volta.
Em maio de 2016, o jornal South China Morning Post, de Hong Kong, publicou que a fábrica de Kunshan tinha caído de 110 mil para 50 mil trabalhadores com a entrada dos robôs.
Sessenta mil postos saíram da folha. A reportagem não trazia rosto nenhum entre eles, nem entre os 50 mil que continuaram na fábrica.
A manchete correu o mundo em dias. A BBC, a revista Fortune e jornais de três continentes repetiram a cifra, quase sempre com a palavra substituídos no título.
Quem entregou a cifra ao jornal, e com que tom, explica a manchete e mostra quem segurou a linha quando o braço mecânico chegou.
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I A história de quem atravessou
A cifra que saiu da prefeitura
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Da sala de imprensa do governo ao posto da garra.
Xu Yulian, chefe do departamento de publicidade do governo de Kunshan, foi quem passou a cifra ao South China Morning Post em maio de 2016. Ela falava como quem anuncia uma conquista da cidade.
Segundo o jornal, Xu disse que a Foxconn tinha reduzido o quadro de 110 mil para 50 mil funcionários graças aos robôs, e que a empresa já colhia sucesso no corte do custo de mão de obra. Acrescentou que mais empresas da região deviam fazer igual.
Kunshan não estava sozinha na conta. Na mesma reportagem, o jornal relatou que 35 empresas taiwanesas da cidade, Foxconn entre elas, tinham gastado 4 bilhões de yuans (a moeda chinesa) em inteligência artificial em 2015.
A Foxconn respondeu à BBC naquele maio com outra ênfase. Disse que usava robótica nas tarefas repetitivas que antes cabiam aos empregados, para que eles se dedicassem a etapas de mais valor, como pesquisa, controle de processo e controle de qualidade.
Antes: o operário encaixava, apertava e conferia a peça com a mão, centenas de vezes por turno
Depois: o Foxbot encaixava e apertava, e o operário vigiava a garra e corrigia o encaixe errado
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“A Foxconn reduziu o quadro de funcionários de 110 mil para 50 mil, graças à introdução de robôs.” Xu Yulian, ao South China Morning Post, 2016.
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As duas versões descrevem a mesma fábrica de ângulos opostos. A prefeitura contava cabeças a menos; a empresa contava tarefas novas para quem ficou.
A tarefa nova tinha forma concreta. Alguém precisava ligar o braço no começo do turno, conferir se a garra pegava a peça no ponto certo e parar a linha quando o encaixe saía torto.
Esse alguém vinha da própria linha. Era o operário que conhecia a peça de cor, porque tinha montado aquele conector com os dedos durante anos, e sabia quando o clique soava errado.
O que não se sabe precisa ficar escrito. Nem o jornal nem a Foxconn deram o nome de um único operário de Kunshan, dispensado ou mantido. A empresa também nunca detalhou quantos dos 60 mil foram demitidos, quantos saíram por rotatividade sem reposição e quantos foram transferidos para outras unidades.
Também não há número público de quantos dos 50 mil viraram técnicos de robô. O registro que sobrou é a fala de Xu Yulian, a nota da Foxconn e a cifra que atravessou o planeta.
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II Radar de Automação
A garra que erra por um milímetro
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O robô repete o encaixe perfeito sem cansar. Quando a peça chega um milímetro fora do lugar, quem salva o lote é o operário que sabe ensinar o braço outra vez.
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Um braço robótico de linha de eletrônicos não enxerga como gente. Ele vai até coordenadas gravadas, fecha a garra e desce com força programada. Se a peça estiver onde deveria, o encaixe sai limpo.
O problema mora na palavra deveria. A bandeja chega levemente torta, o conector vem de outro lote com tolerância diferente, a carcaça dilata com o calor da tarde. A garra desce no ponto gravado e encontra o vazio, ou esmaga a peça.
As peças moles pioram a conta. Cabo flat (o cabo fino e flexível que liga a tela à placa) dobra, torce e muda de forma a cada unidade. Encaixar esse cabo pede tato, e tato segue difícil para uma garra de metal.
Por esse buraco entra o técnico. Com o teach pendant (o controle de mão com que se grava cada posição do braço), ele move a garra milímetro a milímetro, grava o ponto novo e testa de novo até o clique soar certo.
Há ainda a câmera. Muitos braços trabalham com visão de máquina (uma câmera que localiza a peça antes da garra descer). Quando a luz da fábrica muda ou a peça vem com outro acabamento, a câmera erra a leitura, e o técnico ajusta o foco, o contraste e a área que ela olha.
Cada erro de encaixe tem custo visível. Placa esmagada vai para o descarte, a linha para e o lote atrasa. O operário que antes montava a peça passa o turno impedindo que a máquina estrague dezenas delas.
O trabalho que sobrou é menor em quantidade e maior em responsabilidade. Um operário cuidava do próprio posto; o técnico de garra responde por várias, e um ajuste errado dele se repete em cada peça até alguém notar.
Para quem trabalha em qualquer linha, de fábrica, escritório ou atendimento, a lição tem contorno nítido. O gesto repetido, sempre igual, é o primeiro a sair. O ajuste fino, a leitura do que mudou e a decisão de parar a linha ficam com quem conhece a peça.
A automação de uma linha costuma chegar por etapas, começando pelo posto mais repetido. Cada braço recém-instalado pede, nas primeiras semanas, gente da própria linha para ajustar pontos, trocar garras e explicar ao engenheiro onde a peça costuma chegar torta.
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