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Dois anos de caderno, 1.284 paradas não programadas da frota autônoma e 96 delas causadas por veículo leve entrando na rota sem aviso pelo rádio.
Jonas tem 38 anos e mora em Barão de Cocais, a uma hora da mina. Onze anos em caminhão fora de estrada, os últimos quatro na sala de controle. O nome aqui vai trocado, e as duas mineradoras que hoje pagam pelo parecer dele nunca tinham comprado esse serviço de ninguém.
A mudança de função veio com a folha de pagamento remontada. Na cabine, o contracheque juntava salário base, adicional noturno e prêmio por produção do turno. Na sala de controle, o prêmio virou da frota inteira, rateado entre muito mais gente.
A virada aconteceu por teimosia de quem já dirigiu aquela rampa. Jonas passou a anotar num caderno de turno cada parada não prevista da frota, com cinco campos: equipamento, causa, quem autorizou a retomada, minutos sem movimento e tonelada que deixou de sair.
Antes, operação de caminhão fora de estrada com adicional noturno e prêmio de produção do turno: R$ 9.800 por mês
Depois da frota autônoma, supervisão de nove telas em escala administrativa, sem prêmio de turno: R$ 6.400 por mês
O retrato apareceu no fim do segundo ano. Das 1.284 paradas, 411 vieram de poeira e chuva sujando a leitura do sensor, 208 de obstáculo real na pista e 96 de veículo leve cruzando a rota sem aviso pelo rádio. O tempo médio de retomada ficou em 22 minutos.
O dado que mudou a conversa com a gerência foi outro. Nas 96 invasões de rota, o intervalo médio até a retomada subiu para 51 minutos, porque cada uma exigia percorrer a frente, confirmar que não havia mais ninguém dentro da área e liberar por escrito.
Jonas montou um parecer de liberação de rota por frente de lavra, com o que precisa estar checado antes de a frota voltar: onde a barreira física começa e termina, qual equipe está dentro da área, qual rádio responde por ela e quem assina a liberação com horário.
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A frente de lavra sempre teve duas entregas que a mina pagava embrulhadas num salário de operador. Uma era dirigir o caminhão pela rampa. A outra era ler o terreno e dizer quando aquela área aguenta 240 toneladas passando perto de gente a pé.
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Com o parecer em uso numa das frentes, a mina saiu de 96 invasões de rota no ano anterior para 11 no seguinte, e o tempo médio de retomada caiu de 51 para 14 minutos. Quando o gerente perguntou de onde tinha vindo o ganho de tonelada movimentada, Jonas mandou a planilha com a data de cada parada.
A proposta nova saiu no início do ano, com a unidade trocada para área liberada:
Parecer de liberação de rota por frente de lavra, com barreira física, equipes dentro da área, rádio responsável e horário de liberação assinado: R$ 640 por frente
Auditoria de interferência entre frota autônoma e veículo leve, varredura das paradas do período com causa, minuto parado e tonelada perdida: R$ 12.800 por ciclo
Treinamento de sinaleiro de área mista, turma de até 12 pessoas com prova prática na frente: R$ 7.400 por turma
Duas mineradoras e uma terraplanagem fecharam contrato anual. Dez meses depois, sem cobrir um turno de sala de controle, Jonas fechou um mês acima de R$ 21 mil com 31 pareceres de rota e 1 auditoria de interferência.
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