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Dezoito meses de caderno, 906 perguntas anotadas depois da publicação automática e 214 delas sobre lucro que subiu por um evento fora da operação.
Rafael tem 41 anos e mora em Santo André, a uma hora da redação. Doze anos cobrindo resultado trimestral, os últimos três num turno administrativo ao lado do gerador. O nome aqui vai trocado, e as duas gestoras que hoje pagam pela nota dele nunca tinham comprado esse serviço de ninguém.
A mudança de função veio com a folha de pagamento remontada. Na cobertura de balanço, o contracheque juntava salário base, adicional noturno e prêmio de plantão de temporada. No turno administrativo, o adicional sumiu e o prêmio virou bônus anual da editoria inteira.
Antes, cobertura de balanço em plantão noturno com adicional e prêmio de temporada: R$ 8.900 por mês
Depois do gerador, edição de dados em escala administrativa, sem adicional noturno: R$ 5.600 por mês
A virada aconteceu por teimosia de quem já tinha lido mil demonstrações financeiras. Rafael passou a anotar, num caderno de plantão, cada pergunta que chegava à redação depois de o texto automático ir ao ar, com cinco campos: empresa, o que o leitor perguntou, onde a resposta estava na demonstração, quantas horas até alguém responder e quem respondeu.
O retrato apareceu no fim do segundo semestre de registro. Das 906 perguntas, 214 eram sobre lucro inflado por evento fora da operação, 187 sobre número ajustado divulgado fora do padrão contábil obrigatório, e 96 sobre projeção da própria empresa revisada antes da divulgação. O tempo médio até uma resposta ficou em 31 horas.
O dado que mudou a conversa com a chefia foi outro. Nas 214 perguntas sobre lucro fora da operação, o intervalo médio até a resposta subiu para 58 horas, porque cada uma exigia abrir a demonstração completa, achar a nota explicativa e ligar para a área de relações com investidores.
Rafael montou uma nota de apuração de resultado por empresa, com o que precisa estar checado antes de alguém usar o número: qual linha carrega evento fora da operação, qual ajuste sai do padrão contábil, o que a projeção anterior dizia e qual pessoa da empresa confirmou cada ponto, com horário.
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A temporada de balanços sempre teve duas entregas que a redação pagava embrulhadas num salário de repórter. Uma era transformar a tabela em frase até a virada do plantão. A outra era ligar para a empresa e descobrir por que aquela linha cresceu 40% sem que nada tivesse sido vendido a mais.
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Com a nota em uso numa carteira de vinte empresas, as perguntas sem resposta caíram de 214 no semestre anterior para 26 no seguinte, e o tempo médio de resposta caiu de 58 para 9 horas. Quando o diretor perguntou de onde tinha vindo a queda de retificação publicada, Rafael mandou a planilha com a marcação de cada pergunta.
A proposta nova saiu no início do ano, com a unidade trocada para empresa apurada:
Nota de apuração de resultado trimestral por empresa, com evento fora da operação, ajuste fora do padrão contábil, projeção anterior e fonte confirmada com horário: R$ 1.450 por empresa
Auditoria de divergência entre comunicado e demonstração financeira, varredura do trimestre com linha, valor e nota explicativa correspondente: R$ 9.800 por ciclo
Treinamento de leitura de balanço para time de relações com investidores, turma de até 12 pessoas: R$ 6.200 por turma
Duas gestoras e uma consultoria de comunicação financeira fecharam contrato anual. Dez meses depois, sem cobrir um plantão de temporada, Rafael fechou um mês acima de R$ 19 mil com 24 notas de apuração e 1 auditoria de divergência.
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